Em meio ao avanço de óbitos, ministro da Saúde descarta demissão

Ao anunciar mais um recorde diário da taxa de letalidade do novo coronavírus no Brasil, Luiz Henrique Mandetta teve de explicar por que, apesar do processo de fritura, não deixa o cargo: "um médico não abandona paciente"

Legenda: Jair Bolsonaro e ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde) entraram em rota de colisão
Foto: Foto: AFP

No dia em que Brasil chegou a 9.056 casos confirmados do novo coronavírus, avanço de 1.146 (15%) em relação à véspera, enquanto o número de mortes em decorrência da Covid-19 chegou a 359 (alta de 20%), ante 299 na quinta-feira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, teve de descartar, nesta sexta-feira, deixar o Governo Bolsonaro.

"Quanto a eu deixar o Governo por minha vontade, tenho uma coisa que aprendi com meus mestres: médico não abandona paciente", disse ele, em entrevista coletiva no Palácio do Planalto, ao ser perguntado sobre os conflitos recentes com o presidente e a chance de deixar o cargo.

Na quinta-feira, o presidente admitiu, em entrevista a uma emissora de rádio paulista, que está "se bicando" com o ministro da Saúde sobre a melhor forma de condução das políticas para enfrentar o coronavírus.

A troca de farpas entre as duas autoridades ocorre em meio à trajetória da doença rumo ao pico de casos e de óbitos. Ontem, a letalidade da doença no País é de 4%, novo recorde, segundo dados do Ministério da Saúde.

Entre as mortes, 286 já tiveram investigação concluída, sinalizando que 85% dos óbitos foram de pessoas acima dos 60 anos e 82% de pessoas com ao menos uma comorbidade, características que compõem o chamado grupo de risco.

"Pessoas acima de 60 anos são o principal fator... Muito cuidado com o fator idade", disse Mandetta.

Em relação aos Estados, São Paulo tem a maior parte dos registros de coronavírus, com 4.048 casos (alta de 15,5%), e o maior número de óbitos, 219.

Cloroquina

O ministro da Saúde tratou também de baixar um pouco a expectativa criada em torno da cloroquina, medicação de tratamento de malária que tem sido testada em casos graves de pacientes com Covid-19. Anteriormente, Mandetta disse que os primeiros testes científicos com uso de cloroquina começaram a mostrar resultados positivos e a "ciência começa a achar o caminho" no combate à doença.

Nesta sexta-feira, porém, Mandetta disse que, após uma reunião com médicos especialistas que analisaram um primeiro trabalho científico publicado pelo "New England Journal of Medicine", dos Estados Unidos, concluiu que o resultado não é tão promissor.

"O 'pape'' (o estudo original a respeito da substância) é muito frágil no caso de cloroquina", disse Mandetta. Ela tem sido defendida por Bolsonaro como um remédio eficiente para combater a doença. Nesta semana, sem a presença de Mandetta, Bolsonaro se reuniu com médicos para tratar do assunto.

Mandetta não mencionou a reunião, mas deu seu recado para Bolsonaro e para os que estiveram com o presidente. "Estou trabalhando com pouca gente, mas normalmente os 'cabeças brancas' aqueles que têm mais tempo e vivência, não só de sistema, mas de Medicina, onde a gente está discutindo algumas possibilidades em tempos de tantas incertezas".

Independentemente disso, Mandetta disse que o Ministério da Saúde vai oferecer aos médicos do País a possibilidade de utilizarem a cloroquina como opção de tratamento não apenas para os casos críticos de pacientes, como tem ocorrido até agora, mas também para aqueles que estão em situação grave.

Especialistas em cloroquina que se reuniram com o presidente o alertaram: os estudos brasileiros sobre o medicamento ainda devem demorar mais dois meses, no mínimo. O presidente da República tomou notas e falou pouco.

Solidariedade

Como amplamente divulgado nas últimas semanas, os testes brasileiros devem acontecer em meio a um estudo internacional da Organização Mundial da Saúde (OMS) que a Fiocruz está liderando no Brasil.

Chamado de Solidariedade, esse estudo será realizado em 18 hospitais em 12 Estados brasileiros, com foco em seis substâncias, entre elas estão a cloroquina e a hidroxicloroquina (uma versão atenuada do remédio antimalárico, mas que também está sob suspeitas na França, onde ocorreram as primeiras análises de eficácia.


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