Bolsonaro tenta conter onda mundial de ataques à política ambiental

Líderes europeus ameaçam desfazer acordo comercial e boicotar carne brasileira. Presidente tenta rebater críticas em pronunciamento. Donald Trump oferece ajuda dos EUA para combater incêndios na Amazônia

Legenda: Imagem aérea mostra incêndio devastando mata a 65 km de Porto Velho, capital de Rondônia, um dos estados mais castigados
Foto: Foto: AFP

Diante de uma onda mundial de protestos contra a degradação ambiental no Brasil, principalmente com as queimadas na Amazônia, o Governo Bolsonaro tentou, ontem, conter o impacto negativo para a imagem do País e reduzir eventuais danos econômicos.

Ontem, Jair Bolsonaro buscou minimizar a gravidade das ocorrências, em um pronunciamento em rádio e TV.

Já o presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu ajuda para combater os incêndios. "Acabo de falar com o presidente Jair Bolsonaro", tuitou Trump, enfatizando sua boa relação com Bolsonaro e as perspectivas comerciais. "Disse-lhe que se os EUA puderem ajudar com os incêndios na floresta Amazônica, estamos prontos para fazer isso!".

O Palácio do Planalto acionou as embaixadas e consulados brasileiros no exterior para defender a imagem do Brasil, enviando aos postos no exterior uma circular orientando os diplomatas a como proceder em conversas sobre desmatamento, Amazônia, agricultura e meio ambiente.

Os ataques à política ambiental do Brasil se multiplicam. Com as queimadas na Amazônia, países europeus já ameaçam retaliar o Brasil. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que Bolsonaro mentiu sobre compromissos climáticos e disse que será contrário ao acordo entre União Europeia e Mercosul.

Após 20 anos de negociações, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai assinaram recentemente com a UE um acordo que prevê eliminar, em 15 anos, mais de 90% das tarifas comerciais. Para entrar em vigor, porém, é necessário que os países do bloco europeu tenham o aval de seus parlamentos e sinal verde do Parlamento Europeu, um processo que deve levar dois anos.

G-7

Além da França, a Irlanda também ameaçou votar contra o acordo. E o Governo finlandês, que está na presidência rotativa da União Europeia, pediu que o bloco avalie a possibilidade de banir a carne bovina brasileira.

A chanceler alemã, Angela Merkel, considerou que os incêndios constituem uma "situação urgente" e concordou que o assunto deve ser debatido no encontro do G-7. O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, também já se manifestou a favor de levar o assunto para a cúpula.

Repercussão

O novo foco de desgaste para Bolsonaro continuou gerando comentários em várias esferas da sociedade.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) emitiu uma nota intitulada "O Brasil exige respeito", na qual diz ver "com espanto" as ameaças de países europeus de recuarem do acordo comercial entre UE e Mercosul anunciado em junho.

"A Fiesp vê com espanto as ameaças de países participantes do tratado comercial União Europeia-Mercosul, anunciado há menos de 60 dias, de recuarem no que foi acordado. Afinal, todos os pontos pactuados foram exaustivamente debatidos ao longo de 20 anos de negociações e são de amplo conhecimento de todos os envolvidos", disse a nota do presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Já a Indústria Brasileira de Árvores se posicionou sobre as queimadas na Amazônia. Em carta aberta, Paulo Hartung, presidente da entidade, afirma que as ações de desmatamento na floresta "são irresponsáveis e não representam a mentalidade de um mundo moderno, conectado com a bioeconomia, que tanto buscamos e vai custar caro ao Brasil, para o mundo e para as próximas gerações".

A entidade frisou que todo papel produzido no Brasil tem origem em áreas cultivadas para esse fim. "No Brasil, temos 7,8 milhões de hectares de árvores plantadas, comumente cultivadas em terras antes degradadas", disse a Ibá, lembrando que as plantações recebem certificações de origem.

Críticas

A imprensa internacional não poupou espaço para amplificar a crise no Brasil, cobrando ações do Governo Federal em prol do meio ambiente.

Grandes jornais europeus, como o Guardian, o El País e o Le Monde ressaltaram a pressão da comunidade internacional sobre Bolsonaro e os riscos que os incêndios na floresta representam para a estabilidade climática do planeta.

"Líderes mundiais pressionam o Brasil para desviar de rota suicida em incêndios na Amazônia", escreveu o Guardian em sua manchete.

O francês Le Monde ressaltou: "A Amazônia paga pela política do presidente brasileiro". A BBC britânica destacou em seu site as ameaças de Macron e questionou: "Incêndios na Amazônia: como a situação ficou tão ruim?". Na Itália, o La Repubblica lembrou que Bolsonaro encoraja o desmatamento da Amazônia.