Queima, quenguembal!

Quenguembal ou quengaral são termos regionais conhecidos, porém ainda não recepcionados no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), mesmo de há muito utilizados no jargão cearense e grafados pelo dicionarista pernambucano Fred Navarro, como “Grupo ou reunião de quengas, de prostitutas, chamado também putaral” (Dicionário do Nordeste, Cepe Editora, 2ª edição, Recife, 2013).

O porquê da conceituação dessas palavras, em provável futuro reconhecidas oficialmente, deve-se a honroso e deveras aprazerado telefonema que me dedicou o ledor Evandro Nascimento. Servidor público do antigo Departamento Autônomo de Estradas e Rodagens (Daer), aposentado, 83 anos, “literato e viciado na leitura, ouvida e contação de histórias da vida” – assim, alegremente, autodesignou-se.

Em descontraído e longo bate-papo, asseverou haver sido frequentador dos cabarés da Capital, na segunda metade do século passado. Principalmente, a Boate Monte Carlo, na Rua Barão do Rio Branco.

Numa noite, ao sair, notou a gritaria da mundiça vinda da Rua Major Facundo. Ali, fogaréu destruía armazém de tecidos, estabelecido no térreo, e as mulheres e clientes do prostíbulo instalado no andar superior, impedidos de acessar a escadaria devido às chamas, desesperavam-se. Da sacada, nus ou seminus, clamavam por socorro. Houve quem descesse arriscando-se a usar o encanamento de águas pluviais.

Ao chegar a viatura do Corpo de Bombeiros, jatos d’água e escada utilizaram, as pessoas foram retiradas e colocados na calçada em frente, onde atendentes de uma ambulância chamada já estavam a postos.

Cenas as mais impressionantes registravam-se. “Primas” chorando. Homens de cueca samba-canção preocupados com o chegar à casa. Proprietário da loja desesperado, pois sem seguro contra incêndio.

E, segundo Evandro, o replicado alarido da molecada: “Queima, quenguembal!”.


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