O cura se vai

Giuseppe Verdi morria, os cocheiros atapetavam as ruas de Milano, para que o sono do poeta não fosse perturbado. O poeta do Va Pensiero, o pensamento que voa, libertário e indomável. O pensamento que se esvoaça pelo espaço. Va Pensiero sull ali dorate, o pensamento fugidio, inalcançável. Hoje perdemos um grande poeta. Vai-se o querido Pe. Osvaldo Carneiro Chaves (1923-2020), de Granja.

Nabuco de Verdi é um canto de libertação. Chaves parte, envasado da bela poesia. Parte, levando tesouros preciosos para Deus. Leva o seu compromisso sacerdotal. Leva o casamento com a verdade, o ágar onde servia o melhor vinho. Leva a sua agudeza inteligente. Seu despir de bens materiais. Leva este céu lavado de ternura. Vai-se com seu soneto sagrado e rico, vai com sua oração fervorosa, vai com sua pregação consistente.

Padre de fervor medido, professor de cultura robusta e que voava nas asas doiradas da elegância lírica. Publicou um único livro de poesia, Exíguas. Não precisaria mais. No ano passado me mandou seu último livro: "As suas homilias".

Osvaldo atravessou com brilho esta longa travessia. No dia de todos os santos, falava nos santos oficiais. E falava nos santos ocultos. Humildes. Escondidos. Como Isabel a sua madrinha de amamentação. Mãe solteira que fartava e mitigava sua fome. O tempo esmigalha, tangendo a vida numa balada louca. Tento atravessar as colinas adormecidas para nesta imensidão temporal, me encontrar com o padre que conheci menino, nas ruas solitárias de Crateús. Não tinha carro, tinha uma bicicleta. Morava sozinho numa casinha simples na Praça da Matriz.

Exibia e exigia um português castiço. Era rigoroso nos ritos e atos litúrgicos. Era nosso orientador na Cruzadinha. Era orientador dos coroinhas. Brilhou como professor no Colégio Regina Pacis. O tempo é um rio de água paciente. E mais tarde voltei a encontrá-lo em Sobral entre pássaros e livros, nos caminhos de Crateús. Os encontros suscitaram as antigas e doces ressonâncias da minha infância.

Ia ao Ipu ou a Crateús tinha de lhe ver. Levar um livro. Um poema. Um vinho. Como um novo mundo encantado da infância reatasse os laços que nos ligaram um dia. Tenho atravessado a vida entre amores e saudades. Mas o tempo também é este corcel indomável e insensível às nossas amizades tão ditosas. O tempo vai subindo neste rio de lágrimas que nos afogam de tristezas. E de repente nos deparamos com este crepúsculo doloroso. De luz mitigada e de penumbra triste. De missas finitas. Turíbulos frios. Ave Verum recolhido. Agora é Paz somente.

José Maria Bonfim de Morais

Médico e teólogo


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