Editorial: Enfrentar a epidemia

Dos indicativos de forte carga negativa com os quais o País se defronta, poucos são tão aterradores quanto os números da violência. A quantidade de mortes evitáveis registradas em todo o território nacional põe em suspeição imagens positivas que se tem do Brasil, como a alegria e o espírito acolhedor. A realidade, claro, é mais complexa do que os conceitos que tentam dar conta de explicá-la. E os atributos positivos do País devem ser lembrados e reforçados, justamente por passarem por eles a mudança de suas tendências.

Os números de mortes violentas no País, mais concentrados nos grandes conglomerados populacionais urbanos, são suficientes para classificar a situação brasileira como epidêmica. A expressão, saliente-se, é precisa, usada em seu sentido mais rigoroso e nada figurativa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como epidemia os quadros sociais em que há mais de 10 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes/ ano. No Brasil, mais de 60% dos municípios superam essa marca.

Dados consolidados dos últimos anos mostram que, no período de uma década, a média anual ultrapassou os 50 mil mortos. Não é exagero, portanto, quando se compara a uma guerra. Por ano, o Brasil vem fazendo vítimas em quantidade superior ao número de soldados norte-americanos mortos em 20 anos de Guerra do Vietnã. Em 10 anos, a violência foi responsável por enterrar meio milhão de brasileiros.

Recuos desses índices devem ser registrados, e é imperativo um olhar atento, para captar que fatores foram determinantes para a redução de mortes. O País fechou 2018 com redução de 13% no número de mortes violentas, em comparação com o ano anterior. A queda é a maior em 11 anos, levando em conta a série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e interrompeu uma alta de casos do gênero observada por dois anos consecutivos.

O Ceará ficou próximo da média. Registrou-se uma queda de 12,4%. Em números brutos, passou de 5.134 vítimas de crimes violentos em 2017, para 4.498 no período seguinte. Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), apontam para uma redução ainda mais expressiva dos índices neste ano. Se comparado o primeiro semestre do ano com igual período de 2018, a queda é de 53,6%.

A segurança é uma das principais preocupações dos cidadãos. E não por acaso. A falta dela tem impacto direto no ir e vir, portanto, na própria liberdade da população. Consequentemente, afeta outros setores como a educação e a economia. Exige-se do poder público, com frequência, medidas enérgicas, eficientes e de resultado rápido. Quase sempre isso se traduz em investimentos diretos na área de segurança pública, reforçando policiamento e intensificado ações repressivas.

O caminho para a mudança drástica do quadro de crimes violentos, no Ceará e no restante do País, no sentido da redução dos índices, não passa apenas por esse tipo de política de segurança. Para bons resultados a curto, médio e longo prazo, é preciso esforço analítico, para reconhecer as variáveis que determinam o fenômeno. Se problemas na segurança impactam outras áreas, é por meio delas, também, que se muda essa realidade.


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