Editorial: Além dos números 

Os números ajudam a se chegar a um entendimento mais preciso da realidade. Por meio deles, se calcula e se mensura as grandezas. Recorre-se a eles para que seja possível alcançar as dimensões do infortúnio que se abate sobre o mundo. A pandemia se coloca como um desafio a métricas e metodologias. Os número, claro, são úteis, mas estão aquém do real. São como uma indicação que exige o complemento da imaginação - o problema está além deles, e requer esforço e coragem de se contemplar sua real extensão.

É assim que precisam ser vistos dois números recentes, e já superados, da Covid-19 no Brasil. O primeiro são os 10 mil casos, registrados ainda na sexta-feira. No sábado, foi a vez de o Ceará ultrapassar os 1 mil casos da doença. As projeções de especialistas é que os óbitos sigam se multiplicando, junto com o contágio. Possivelmente se falarão destes marcos, num futuro próximo, como os primeiros 10 mil mortos, em âmbito nacional; os primeiro 1 mil, localmente.

As grandezas que estes números traduzem são, por si só, imensas. Mas há muito mais, para além delas. As estatísticas, para alcançar a com mais exatidão a realidade da crise, deveriam contabilizar a quantidade precisa de mortos - o tempo necessário para as testagens não permitem que se tenha todas as confirmações e pronto. Há ainda as consequências de hospitais lotados, operando no limite de sua capacidade, e que, por ora, ficam aquém da demanda da crise.

Comparações tem sido feitas para simplificar o entendimento destes números com muitos zeros. Para alertar as pessoas quanto a gravidade da situação, tem-se mesmo recorrido ao exemplo dos desastres aéreos, para se quantificar as mortes diárias. Toma-se, aí, o caminho do choque para sensibilizar as pessoas e instituições da necessidade de não se baixar a guarda diante da ameaça da pandemia.

O que, em definitivo, número algum pode quantificar são as dores por trás de cada uma dessas mortes provocadas pela Covid-19. O sofrimento daqueles que se foram e dos que ficaram. Dor que se irmana as daqueles que, hospitalizados ou em casa, se tratam da doença na incerteza da cura; dos amigos e familiares que aguardam notícias dos seus, socorridos no fronte do embate com a pandemia. Não há nada de abstrato nesses dramas humanos. A perda que trazem inscritos em seus centros é universal: ninguém está livre dela ou fora de seu alcance. Se para a maioria dos brasileiros, há poucos, a doença e a dor estavam distantes, circunscritas à Ásia, hoje é uma incômoda companhia cotidiana. Já adentrou a residência de centenas de milhares de pessoas, quiçá de milhões. Chega aos vizinhos, parentes, amigos - não importa onde se esteja.

A história ainda está por ser escrita. Se, nela, pesa a variável do que está além de nossas possibilidades de conhecer, também faz a diferença ao fim as medidas tomadas para apontar-lhe um curso, aquele em que a morte se faz menos presente. O exemplo de ignorar, por tempo demais, a real ameaça da pandemia fez a nação mais rica do mundo liderar em óbitos. Por sua vez, o esclarecimento, a disciplina e a cooperação entre cidadãos e governos têm feito os países asiáticos conseguirem retomar suas rotinas. Seguir o caminho certo pode ser incômodo e difícil, mas escolher, de fato, não é difícil de se tomar.