Editorial: A persistência da seca

O Ceará tem paisagens de abundância: serras de clima ameno, férteis, floridas e de vegetação densa e verdejante; e, longe dali, um litoral reconhecido internacionalmente pelos atrativos de suas praias e pelo calor das águas. Contudo, a paisagem predominante no território do Estado, também dotada de beleza, é a do sertão. Mas essa não é a qualidade mais evidente dessa geografia. É, antes, aquela que Euclides da Cunha atribuiu àqueles que nela vivem: a força. A seca confronta a terra e o homem, que a respondem com resistência.

Depois de seis anos seguidos de estiagem, o Ceará deve ter pela frente uma quadra chuvosa com precipitação em torno da média histórica, se confirmado o prognóstico divulgado pela Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme). De acordo com estudos da instituição, há 40% de probabilidade para que as chuvas fiquem em torno da média histórica; 30% de chances de ficarem inferior à normalidade; e 30% de terem um volume acima do normal. Se, por um lado, não se confirmaram os temores de previsões de um ano de seca severa; por outro, o que se tem é uma perspectiva menos positiva do que a que se teve no ano passado, insuficiente para fazer superar os problemas acumulados em um dos mais longos períodos de escassez de chuvas já registrado no Estado.

A seca é persistente e sua reincidência, uma questão que se impõe a todos os gestores públicos – municipais, estadual e federal. Ela atormenta a população e inspira preocupação mesmo por parte de quem vive na Capital, localizada no litoral, onde as chuvas costumam cair com mais generosidade. É comum se lançar bons augúrios de que chova no interior, cada vez que as nuvens se adensam sobre a metrópole.

A estiagem é uma companhia, inoportuna decerto, que nunca fica muito tempo sem visitar o Estado, quando não decide por aqui se fixar por um par ou mais de anos. Não sumirá como qualquer quimera surgida no escuro, para a qual basta fechar os olhos. É preciso, além de força, coragem e segurança para olhá-la nos olhos e se lançar num embate que, certamente, se seguirá, mesmo passados muitas décadas do desaparecimento desta geração que se prepara para viver mais um ano sem a desejada abundância de chuvas.
O cearense costuma se congratular de (e também ser congratulado por) seu engenho. Aos efeitos da seca, contrapõe ações em diversas frentes e com raios de alcance igualmente variados. Cisternas que atendem famílias e pequenas propriedades, tecnologia de dessalinização da água do mar, reservatórios de várias dimensões, novas formas de levar a água de um lugar a outro ou mesmo, no limite, em caminhões-tanques para socorrer as áreas de difícil acesso. 

É preciso aprender com a persistência da seca, para que também persista o engenho e a criatividade, alimentados sempre pela ciência, na busca por soluções para este problema tão antigo. Neste espírito, também deve conduzir suas ações o poder público, para se distanciar do igualmente antigo e vergonhoso fantasma da indústria da seca, dos usos politicamente oportunistas de combate a ela. A população e as empresas, por sua vez, devem ser conscientes da delicada questão hídrica no Estado, promovendo um uso correto da água, eficiente e sem desperdícios.
 


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