"Velhos" problemas

Brasil enfrenta há mais de seis meses uma grave doença, de alcance pandêmico. No Ceará, se acerca dessa marca. O tempo decorrido desde os primeiros registros de contágio é breve, seja do ponto de vista histórico ou mesmo sob a perspectiva de uma trajetória humana.

Contudo, poucos períodos foram vividos de forma tão intensa, tão carregados de registro, de notícias em tempo real, de dados computados e cruzados. Diariamente, o cidadão informado tinha a seu dispor panoramas do presente, projeções em busca de se antecipar as armadilhas do futuro, comparativos para se compreender a jornada, seus acidentes e para que seja possível contribuir para a invenção de um caminho de saída.

Consequência dessa experiência, é que episódios relativamente recentes parecem ter acontecidos em tempos remotos. Novos hábitos foram adotados e substituídos num período curto. Daí que algumas imagens, repetidas com insistência, pareçam antigas. Velhas conhecidas que, a cada manifestação, reforçam seu caráter inoportuno. São incômodas e exigem mudanças, desde o primeiro momento, e, mesmo hoje, para elas não cabe nenhum tipo de normalização.

Não deixam de impressionar as aglomerações e a dificuldade de superá-las. Não se trata aqui do uso irônico, jocoso até, com que as pessoas têm tratado encontros sociais, com amigos. Inoportunas são as manifestações massivas, documentadas por imagens profissionais e amadoras, de faixas de praias lotadas; de festas informais em praças; de longas filas em agências bancárias; de multidões em espaços públicos e privados que estão em desacordo com momento. 

Mais do que otimismo, de quem já toma por superada a pandemia, o que se testemunha é certa negligência, com o próprio bem-estar e com a saúde do próximo. Em outros países, importante se salientar, já ocorreram episódios de novos picos, quando a tendência de queda do número de contágios foi interrompida e, mais uma vez, se exigiu da sociedade a adoção de medidas restritivas severas. 

Quando o Ceará avança em sua retomada de atividades presenciais, de diversos setores, é fundamental que a sociedade responda a tal chamamento com responsabilidade. Os bons números que o Estado tem apresentado são resultado da gestão da crise por parte do poder público, dos cidadãos e de se suas instituições. 

Equívocos de uma minoria, contudo, não podem ser ignorados, pois são capazes de prejudicar o todo do corpo social. A pandemia da Covid-19 não deixa esquecer que a sociedade é um corpo necessariamente solidário, depende de uma compreensão coletiva do impacto que os atos de uns têm sobre os outros. Nunca é demais voltar a lembrar da importância do espírito cidadão, comprometido com o bem-estar dos seus pares e ciente de suas responsabilidades.

Seis meses é tempo suficiente para que certos hábitos tenham se esgotado, exigindo pronta superação. As aglomerações são anacrônicas e, como tais, devem ser relegadas ao tempo ao qual pertencem: o passado. A mudança exige vigilância de todos, tomada de consciência de quem delas participou e rigor nas ações de fiscalização e educação dos entes públicos, municipais, estaduais e federais. O interesse, sabe-se, é de todos.


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