Editorial: Travessia árdua

Não há formas fáceis de se atravessar os tempos excepcionais impostos ao mundo com a emergência de uma doença não apenas grave, mas altamente infecciosa e de letalidade elevada. Nos primeiros meses deste ano, o que se viu foram países adotando medidas duras para conter a Covid-19. O coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) se irradiou por todo o mundo, a partir da Ásia. Impactou severamente na saúde pública e exigiu medidas sanitárias que, inevitavelmente, atingiram os setores produtivos, desencadeando uma crise econômica que, também ela, ainda não dá sinais de superação.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e, fazendo-lhe eco, as autoridades nacionais de saúde, em todos os continentes, se alinharam quanto à recomendação de se implementar medidas de distanciamento social, as mais abrangentes possíveis. Não faltam exemplos para atestar a eficácia do método. Nações como a Nova Zelândia optaram por restrições rigorosas à circulação de seus cidadãos e à operação dos negócios considerados não essenciais. Outros agiram de forma tardia e se arriscaram a apressar-se no relaxamento das medidas, sendo a Itália e os EUA exemplos disso. O resultado, como antecipado pelos especialistas, foi de sucesso no primeiro caso; e se insucesso no último. A régua que se mede um caso e o outro é a do número de infectados e, mais grave, de mortos pela doença.

A partir de amanhã, começa a valer no estado um novo conjunto de regras de circulação, isolamento social e funcionamento de instituições públicas e privadas, acordadas entre o Governo do Estado do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza. A elas, antecedeu-se o uso obrigatório de máscaras em locais públicos e áreas comuns. As novas restrições limitam o trânsito de pessoas ao deslocamento para locais de trabalho, no caso das atividades autorizadas a operar durante a pandemia; e nos percursos até locais que prestem serviços essenciais, como farmácias, clínicas veterinárias e supermercados. Destes também se cobrará maior controle de acesso às suas instalações e o respeito, dentro delas, da distância mínima de 2 metros entre as pessoas.

O fechamento imposto pelo decreto não poderia mais tardar. Evitá-lo seria impensável, dadas as circunstâncias do momento. O Ceará se mantém como o terceiro estado brasileiro mais atingido pela crise da Covid-19, de acordo com os dados tabulados pelo ministério. A subnotificação e a testagem insuficientes de par a par do País colocam questões sobre este ranking, mas, mesmo sem se levar em conta essa incógnita, a situação do Estado é suficientemente preocupante para exigir medidas enérgicas.

A escalada ao pico de infecções ainda está em curso. Necessário se destacar que não há um "teto" de infecções e mortes: o pico, sem os devidos cuidados, pode atingir alturas ainda mais elevadas nos gráficos e o platô que representa este momento mais crítico pode se prolongar além do inevitável.

Em grande parte, o sucesso da luta contra a pandemia e a possibilidade de abreviar a temporada mais restritiva dependem da colaboração do cidadão. O dever cívico, o cuidado de si e do outro exigem disciplina e respeito ao decreto, para que dias melhores cheguem mais rápido.