Editorial: Responsabilidade cidadã

O ano começa sob o signo da responsabilidade com o bem comum. É ano de Olimpíadas, como lembram de pronto os entusiastas do esporte, mas é, principalmente, ano de eleições, como todos serão lembrados. O momento é incontornável e tornar-se-á cada vez mais proeminente. Não poderia ser diferente. Há muito em jogo, para o cidadão e para a classe política.

O ambiente político-ideológico brasileiro mantém a temperatura elevada que o caracterizou na última meia década. Por vezes, falta razoabilidade e espírito republicano das partes envolvidas, ainda que estes predicados sejam indispensáveis à vida em sociedade, de forma a garantir o respeito às diferenças. Os resultados destes atritos são sentidos em diversos setores, que podem ser representados, transversalmente, na fragilização das instituições.

O cidadão precisa cultivar o espírito vigilante, pelo bem do presente e pela importância que o olhar crítico tem para o futuro. Afinal, a necessidade de se escolher representantes com consciência não é apenas um clichê dos discursos de apologia à democracia. Atacado pela desconfiança e pelo cinismo; condenado por sua fórmula, em tese, demasiado simples; o mandamento é sólido. Não faltam exemplos, distantes e recentes, das consequências de ignorar a sabedoria nele contida.

Algumas pautas, certamente, voltarão à tona. Cabe que se tenha rigor ao considerá-las, já que ainda que o problema seja real, a abordagem pode enveredar pela fantasia, com motivações nada republicanas. As soluções propostas devem ser bem mensuradas, pois, por vezes, podem agravar os quadros aos quais visam tratar, ao invés de saná-los.

Mercadores de soluções mágicas são capazes de reduzir a ansiedade do momento, ao preço da erupção de problemas represados em um futuro não muito distante. Problemas sociais complexos, históricos e abrangentes não desaparecerão com gritos deste ou daquele valentão, do tipo que faz crer que na política, território da diplomacia, se resolverá tudo aos socos, com movimentos bruscos de quem brada contra o que está errado. Problemas graves, na vida pública como na pessoa, demandam serenidade, racionalidade e conhecimento da realidade sobre a qual se debruça.

Há de se atentar, por exemplo, ao discurso reincidente sobre o combate à corrupção. Em princípio, não há nada de errado com ele. Este, aliás, precisa ser entendido como um princípio essencial, não como uma exceção. A ética é um dever do cidadão e de seus representantes, não algum tipo de adicional; é condição indispensável. É o grau zero de quem apresenta suas ideias e intenções para o bem da coisa pública.

Por vezes, o combate à corrupção adquire centralidade em discussões, que prescindem de discutir pontos fundamentais. Não ser corrupto e não tolerar esta prática nefasta que exaure os recursos públicos e violenta o cidadão é o básico; é missão comum. Quem deseja representar a população, ou um segmento dela, deve ir além. Precisa de ideias claras e objetivas; dele se exige a integridade intelectual e política, de não ceder ao comércio de fórmulas simplórias e inócuas. A todos, postulantes a representantes e futuros representados, cabe a responsabilidade de não se recorrer às falsas ilusões.