Editorial: O risco da evasão escolar

Tenacidade é uma qualidade cada vez mais necessária. O momento a exige de todos, dada as incertezas que ainda impedem uma visão clara do futuro. Do que se pode garantir atualmente, quando se procura antecipar os que reservarão os dias vindouros, é que os efeitos da pandemia sobre a sociedade reverberarão por muito tempo. É justamente por isso que a resistência é tão importante, pois as ações demandadas dos indivíduos e das instituições precisam estar alinhadas tanto com as necessidades do presente, como de garantir, hoje, que o futuro será menos difícil.

Não se fala, aqui, do chamado “novo normal” – reconfigurações do cotidiano que a crise sanitária continuará a impor até que seja superada. Trata-se, na verdade, do que se ainda fará sentir, não como cicatriz, mas como ferida aberta. São os problemas legados por este tempo de exceção. Em parte, alguns foram inevitáveis, caso do impacto econômico, uma constante em todos os países que, preventivamente, adotaram medidas de distanciamento social, para frear o ritmo do contágio e garantir que seus sistemas de saúde comportassem a demanda por leitos. 

Um dos casos mais complexos é o da educação pública. A área também sofreu a interrupção das atividades presenciais – necessária, como contribuição para os esforços de conter a propagação da doença contagiosa. A pandemia tomou o País de assalto e não houve tempo hábil, considerando o imperativo da segurança sanitária, para que fossem adotados preparativos. Foi preciso adaptar a dinâmica de ensino. O passo foi sendo acertado ao longo da caminhada, incorporando novas experiências e seguindo os novos protocolos de proteção individual e coletiva.

Mas o caso vai além das questões didática e pedagócica. Especialistas e entidades dedicadas à promoção e ao incentivo da educação têm alertado para a tendência do aumento da evasão escolar, neste ano, decorrente das dificuldades encontradas por alunos e famílias durante os primeiros seis meses de convivência com a Covid-19. Trata-se de uma tendência nacional. Por hora, não há números que confiram precisão ao movimento que se tem observado.

Os múltiplos obstáculos que se impõem aos estudantes só podem ser compreendidos como integrantes de um problema sistêmico. Dificuldades de ter acesso a dispositivos que permitam acompanhar aulas a distância, falta de um ambiente doméstico propício à concentração, dificuldades financeiras que empurram jovens mais cedo ao trabalho, para contribuir com a renda familiar: estes são alguns dos fatores que atuam neste complexo cenário.

Não é o caso, portanto, de pensar um desafio único, no âmbito educacional, a ser enfrentado apenas pelas secretarias específicas, no âmbito dos governos federal, estaduais e municipais. As causas são variadas e para evitar o abandono escolar é necessária uma resposta igualmente sistêmica, com diversas frentes capazes de minimizar os efeitos e a pressão destes tempos sobre os alunos.

A saída passa pela tenacidade de alunos e das famílias, mas, sobretudo, exige respostas amplas do poder público, que tem diante de si um problema social que, se não for enfrentando de pronto, será sentido de forma mais expressiva nos números da educação no futuro.