Editorial: O Brasil na encruzilhada

Do ponto de vista da economia, este será mais um ano para ser esquecido. A pandemia do novo coronavírus - cuja trágica agenda segue avançando sobre o Brasil - destroçou não apenas as empresas privadas, que agora se veem sem encomendas e sem consumidores, mas os governos estaduais e municipais, que perderam, e perderão mais ainda ao longo dos próximos meses, sua receita tributária. Em seu socorro, está vindo a União que ganhou do Parlamento o direito de ampliar o gasto público graças ao invento do chamado Orçamento de Guerra, uma Lei de Meios paralela que permite a ampliação da dívida e a injeção direta de dinheiro nos entes federados. Toda essa engenharia orçamentária, para cujo desenho uniram-se o Congresso Nacional e o Governo Federal, tem um tempo de validade: 31 de dezembro de 2020.

Ao mesmo tempo em que se fecham em todo o País empresas de todos os portes, com o consequente aumento acentuado do desemprego, os governos dos estados e municípios têm a enfrentar, além da espantosa redução da arrecadação de tributos, que no Ceará é estimada em 40%, os catastróficos efeitos sanitários da Covid-19. Em outros estados, como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Norte, chegou-se mesmo à insolvência, com esses entes atrasando o pagamento das faturas dos seus fornecedores e dos vencimentos dos seus servidores ativos e dos proventos dos seus aposentados -

Consertar a economia depois desta guerra pandêmica será uma tarefa hercúlea que exigirá engenho e inovação. Até o fim de fevereiro, recolhiam-se sinais de que o PIB brasileiro poderia crescer mais de 2% neste exercício. Em março, quando se registrou a primeira morte pelo coronavírus, desmoronaram-se as boas perspectivas e, desde então, o otimismo foi substituído pela dura realidade da epidemia, que logo virou pandemia, pois o mundo todo se viu infectado. Estudos já publicados indicam que emergirá da pandemia um novo estilo de viver, de produzir e de trabalhar, algo que só o tempo o provará. Há dúvidas, e elas são muitas, sobre como o Brasil sairá desta crise. Para recolocá-lo no trilho do desenvolvimento, serão necessárias duras medidas, para as quais a Lei exige o apoio do Congresso Nacional.

Para essa mudança, é indispensável uma liderança política forte capaz de convencer o Parlamento, algo de que, neste momento, carecem o Brasil e os brasileiros. Em um ambiente político conturbado como de agora - e em meio a uma tragédia sanitária que impõe um isolamento social decretado, mas não totalmente obedecido - ajustar as contas públicas não será fácil, pois no núcleo do Governo Federal há duas correntes de pensamento, uma a favor de mais intervenção do Estado no domínio econômico; outra, liberal, pedindo mais privatizações e mais concessões, limitando a atuação estatal às áreas da educação, saúde e segurança pública. Há planos traçados pré-pandemia, com vistas a solucionar problemas anteriores a ela que ainda carecem ser resolvidos.

É fácil concluir que o Brasil está numa encruzilhada. O desafio que se impõe é não somente escolher a via mais prudente e eficaz, mas arregimentar apoio harmonioso a ela, partindo dos três poderes. No que toca a esse entendimento mútuo, o País tem muito a melhorar.


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