Editorial: Leitura interrompida

Não há setor da sociedade que tenha deixado de sofrer com o baque da pandemia da Covid-19. Alguns, contudo, parecem invisíveis e deles pouco se fala, ainda que enfrentem desafios incontornáveis. A mais recente edição da pesquisa Painel do Varejo de Livros no Brasil, divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, atesta como a pandemia do novo coronavírus alterou hábitos de consumo dos brasileiros quanto à leitura de obras impressas. O faturamento do mercado editorial nessa seção registrou queda de 47,6% em abril, na comparação com o mesmo período do ano passado. O valor arrecadado caiu de R$ 125,4 milhões para R$ 65,7 milhões. Importante salientar que, 2019, já havia sido um ano aquém do esperado pelo setor.

O percentual das vendas também foi negativo, com retração de 45,4%. O levantamento baseia-se no resultado da Nielsen BookScan, que verifica as vendas em livrarias, varejistas e e-commerce. Somente a versão física dos títulos é considerada no estudo.

Apesar de lamentável, o panorama já era esperado: com o fechamento de estabelecimentos para conter a proliferação da Covid-19, os efeitos sobre uma área que historicamente vive a duras penas no Brasil só poderiam piorar. A bem da verdade, a profunda crise no setor é sentida há algum tempo, culminando, no ano passado, com a entrada em recuperação judicial dos principais canais de venda no ramo.

O caso chama atenção porque as livrarias são um tipo singular de negócio, ocupando lugar central para a cultura de um País. Nação alguma pode prescindir de cultura e, menos ainda, de leitura. É hábito intrinsecamente ligado à formação cidadã.

No Ceará, as casas de comércio do livro precisam, assim, se reinventar para fazer com que a economia do negócio possa sobreviver, sobretudo os de pequeno porte. De forma geral, a maior adesão aos canais digitais, embora continue encaminhando os consumidores para os sites de grandes redes e lojas, é uma das únicas e mais eficazes estratégias a se desenvolver agora. Se bem utilizados, os mecanismos de divulgação podem manter a base de clientes e até mesmo angariar novos.

Em Fortaleza, as livrarias independentes têm intensificado as dinâmicas de relacionamento com o público por meio das redes sociais e WhatsApp, fazendo entregas por delivery. Nessa conta, também se incluem os sebos, que igualmente adotam práticas virtuais na tentativa de romper a fronteira entre pessoas e palavras e sustentar o empreendimento.

Certo é que o período pandêmico faz com que o retorno financeiro continue amargando no fechamento das cálculos no fim do mês. Mas os esforços da parte de livreiros locais demonstram não apenas a capacidade de tentar driblar a crise, como também convoca a sociedade a valorizar esses espaços de efervescência cultural e intelectual.

Independentemente se por meio de recursos digitais ou impressos, ler é importante sempre e, neste tempo de pausa compulsória, torna-se mais uma atividade para encarar os dias. Contudo, quando há o risco do fechamento de tão relevantes ambientes na cidade e no País, feito as livrarias, é imperativo concentrar energias e recursos para que elas continuem funcionando.


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