Editorial: Invisíveis da Covid-19

Epidemias atingem as cidades de forma desigual. Encontram espaços mais propícios à propagação em bairros e localidades de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). São exatamente estes os lugares mais carentes de infraestrutura, com saneamento básico precário ou mesmo ausente e onde o acesso aos serviços de saúde são mais limitados. Vários fatores contribuem para agravar e multiplicar casos de infecções. Com a pandemia da Covid-19, tal tendência tem se confirmado.

A partir de março, aos poucos, a doença avançou sobre os bairros da periferia da Capital e da Região Metropolitana de Fortaleza. A dificuldade de se manter as medidas de isolamento social tem sido patentes em algumas das zonas mais pobres da metrópole. Combinado com as condições estruturais das moradias, pequenas, insalubres até, mas que acomodam, em regra, famílias numerosas.

Há uma ligação direta entre o saneamento e a prevenção de doenças - e é importante se explicitar o óbvio, que a Covid-19 não fez sumir as outras enfermidades, mas se somou a elas. As medidas protetivas para conter o contrário pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (Sars-Cov-2) exigem condições básicas de higiene, como o acesso à água limpa para higienizar sobretudo as mãos, com sabão; e espaço, para que seja possível se manter um distanciamento seguro entre as pessoas.

Quem vive nestas condições, em regra, também sentiu primeiro os efeitos econômicos da crise sistêmica desencadeada pela pandemia da Covid-19. A necessidade se adotar medidas restritivas para circulação de pessoas e ao funcionamento de indústrias, comércios e serviços considerados não essenciais teve impacto imediato nos informais.

Gente que tira seu sustento do comércio do dia a dia se viu sem renda e sem reservas. A carência não esperou semanas, nem meses para se fazer sentir: tomou se assalto os mais vulneráveis de todas as cadeias econômicas.

Não foi a toa que, de pronto, a situação das parcelas mais pobres da população, em todo o País, vem ocupando discussões dos poderes Executivo e Legislativo. Demandam mesmo ações de gestores públicos, de pastas específicas, como as da Cultura, que tem lançado planos de socorro exclusivos para determinadas categorias produtivas.

A implementação de planos de ajuda emergencial por parte dos governos esbarra na dificuldade de se acessar alguns setores da população e, mesmo, se precisar quando são os mais necessitados. Consequência indireta destas medidas foi o reconhecimento de que parte dos cidadãos se encontra além do campo de visão do poder público e, em tempos de calamidades, tal invisibilidade retarda ações e ameaça sua eficiência.

O caso presente tem levado a discussões sobre o que deve ser feito, para além da temporada pandêmica. Fala-se mesmo em modelos diversos de projetos que garantam renda mínima à população. Há, contudo, o problema real da escassez de recursos dos próprios governos, agravados nos últimos meses.

Não há respostas fáceis à vista. A população procurará, como sempre, suas próprias soluções emergenciais. E o poder público terá diante de si uma experiência que deixa ainda mais claro um problema urgente a ser enfrentado: o da exclusão de parte dos cidadãos.


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