Editorial: Hora do entendimento

Neste momento de crise causada pela pandemia do coronavírus, o que se observa no Brasil é o efeito social dessa infecção que avança sobre o mundo em todas as direções. O efeito econômico está por vir. Por enquanto, as exportações brasileiras para a Ásia, seu principal destino, e para os Estados Unidos seguem normalmente, o que mantém o emprego no campo de onde saem a soja, o milho, o algodão e a proteína animal que abastecem mercados importantes como o chinês, o japonês e o europeu, onde o vírus já paralisa países, como a Itália, cujas cidades e seus habitantes estão sob severa quarentena doméstica e hospitalar. A China anuncia a retomada gradual da atividade industrial, o que é boa notícia para os países que lhe fornecem matérias-primas – entre eles o Brasil. O problema está saindo da China e transferindo-se para o continente europeu e para os EUA, parceiros importantes do País.

Há vários anos crescendo a taxas mínimas, a economia brasileira depende, e muito, de novas reformas estruturantes, incluindo a tributária e a administrativa, que ainda não foram encaminhadas pelo Executivo à apreciação do Legislativo. Diante da emergência sanitária – que atrairá a atenção geral pelos próximos quatro meses, no mínimo, segundo especialistas – o Governo tem que superar os problemas anunciados, e para isso depende de sua boa relação com o Congresso Nacional.

Os atritos existem e precisam ser superados. O Governo não viu com bons olhos a medida que injeta no Orçamento da União um gasto de R$ 20 bilhões anuais, por exemplo, para garantir maior valor para o Benefício de Proteção Continuada (BPC) pago aos maiores de 65 anos e deficientes. 

Não será fácil a construção dessa ponte de boa relação dos dois poderes. O Executivo, pela voz de ministros com gabinete no Palácio do Planalto, critica o Legislativo por pressioná-lo por mais emendas parlamentares; o Legislativo revida e impõe mais obrigações financeiras ao outro. Em ano eleitoral, as movimentações políticas em vistas do pleito tornam a queda de braço mais tensa. 

Para que a economia do Brasil, neste tempo de coronavírus, robusteça-se e saia forte da crise, os dois lados devem acertar-se. A atitude do presidente Bolsonaro, pedindo o cancelamento da manifestação de domingo, 15 – a favor do seu Governo e das reformas e crítica ao Congresso Nacional e ao STF – foi positiva. Reduz a tensão entre as partes e, assim, contribui para o entendimento. 

Ao mesmo tempo, o Ministério da Economia age para aquecer a atividade por meio do aumento do consumo, e a antecipação do pagamento da primeira parcela do 13º salário dos aposentados do INSS tem esse objetivo. As subidas e quedas da Bolsa de Valores e do dólar fazem parte do jogo especulativo dos mercados, mas, para evitar mais sobressaltos, o Banco Central intervém, gastando suas reservas, que no início da crise eram de US$ 370 bilhões. 

O Brasil aproxima-se do olho do furacão da crise e, até aqui, tem agido corretamente e eficientemente no front sanitário, mas precisa, urgentemente, cuidar melhor da consequência econômica da mesma crise. Para isso terá de buscar o melhor diálogo com o Parlamento, pois nos regimes democráticos é assim que as coisas acontecem.