Editorial: Enfrentar o câncer

O problema é grave e se traduz em números superlativos. Nos países das américas, o câncer figura como a segunda principal causa de morte da população. Os últimos números consolidados, referentes à situação de 2018, dão conta de que 3,8 milhões de casos foram diagnosticados e notificados no período, e a doença matou 1,4 milhão de pessoas. A população idosa responde por, aproximadamente, metade dos diagnósticos e dos óbitos.

O caso preocupa a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com estudos do organismo transnacional, caso as tendências atuais mantenham-se conforme os padrões atuais, se observará um aumento de 60% nos casos de câncer, em todo o mundo, nas próximas duas décadas. O maior acréscimo – da ordem de 81% – no número de diagnósticos ocorreria, então, em países de baixa e média rendas – e o Brasil figura entre eles. Nestas nações, as taxas de sobrevivência são mais baixas do que aquelas registradas em países desenvolvidos.

Aumentar serviços de atenção à saúde, destinados ao tratamento dos diversos tipos de câncer, é uma necessidade atestada pela OMS. Relatórios recentes da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, na sigla em inglês), ligada à OMS, mostram que os países mais pobres, em regra, priorizam ações de saúde e a destinação de seus recursos ao combate de doenças infectocontagiosas e nos cuidados materno-infantil.

Prevenção, triagem, diagnóstico e tratamento para pessoas com câncer figuraram numa zona que recebe menos atenção. O descompasso é acentuado. No ano passado, cerca de 90% dos países de alta renda mantiveram sistemas abrangentes para o tratamento de câncer nos serviços de saúde pública. Entre os países de baixa e média rendas, este percentual era de apenas 15%.

É particularmente importante atentar para uma projeção condicionada da Iarc-OMS, segundo a qual 7 milhões de mortes poderiam ser evitadas na próxima década. Para tal, programas públicos deveriam buscar a máxima eficiência na adoção de intervenções que, comprovadamente, potencializam a prevenção de novos casos da doença. É o caso do combate ao tabagismo, causa de câncer que, isoladamente, responde por 25% das mortes pela enfermidade. Vacinações, contra a hepatite B e contra o papilomavírus humano (HPV), também são eficientes na redução de incidências de câncer de fígado e de colo do útero, respectivamente.

São áreas sobre as quais o Brasil precisa ampliar sua atenção. Pela estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão ligado ao Ministério da Saúde, até o fim deste ano, 625 mil novos casos devem ser diagnosticados no País. A próstata é a região mais comumente afetada, entre homens; e a mama, entre as mulheres. O primeiro mantém uma taxa de 74,18 casos para cada 100 mil habitantes; e o segundo, ainda maior, de 86,56 casos por grupos de 100 mil pessoas. Em ambos os casos, a proporção é maior do que a das médias nacionais.

O enfrentamento ao câncer depende, em larga medida, de políticas de saúde pública que garantam serviços de prevenção e conscientizem a população a investigar casos suspeitos. O diagnóstico precoce é determinante para se reverter números ainda grandes que têm motivado alertas transnacionais.