Editorial: Cultura em perspectiva

Em plena crise do novo coronavírus, uma temática geralmente eclipsada ganhou maior fôlego na esfera pública: a importância da cultura. Haja vista que o confinamento não é somente a recomendação máxima da Organização Mundial da Saúde (OMS), mas sobretudo uma atitude de consciência para evitar uma maior circulação do novo coronavírus, o movimento de artistas nas redes sociais neste período acena para uma possível mudança de paradigmas em relação às multiplicidades de consumo e feitura da arte. Resultado: olhares renovados sobre o alcance e o peso dessas práticas.

Antes mesmo do lançamento de editais pelos órgãos competentes do setor em Fortaleza e no Estado, novas dinâmicas já podiam ser sentidas. Contadores de histórias infantis organizaram uma espécie de agenda para, durante todo o dia, auxiliar os pais a entreter as crianças com boas narrativas; poetas começaram a desengavetar textos ou tirá-los das estantes, a fim de recitá-los; cantores e compositores adotaram a sala de casa como simultâneo estúdio e palco, realizando shows no calar da noite ou na aurora do dia. As transmissões ao vivo, assim, tornaram-se a premissa possível para que o mundo entre quatro paredes se agigante. Vire lar partilhado por tantos.

Em semelhante movimento, o público também reagiu. Não são raros os casos de pessoas que começaram, durante esta quarentena, a desenvolver ou começar a divulgar alguma habilidade abreviada na outrora caótica rotina. Do compartilhamento de simples aquarelas em papel às apresentações nas sacadas dos apartamentos, por exemplo, a sede é de positiva novidade. Inconscientemente (ou não), espera-se que cada manifestação insira em nossa difícil realidade atual algo que somente a arte é capaz de produzir: a liberdade e, portanto, a capacidade de transformar qualquer coisa, como disse certa vez o ator e diretor baiano Hilton Cobra.

A partir do exposto, é fundamental levantarmos algumas questões bastante importantes. Ao destinarem, por meio da política de editais, verba para o trabalhador da cultura - geralmente autônomo, sem renda fixa e dependente da execução de projetos - as autoridades locais fazem um movimento necessário de apoio ao artista, algo que deve acontecer em quaisquer circunstâncias, seja de pandemia ou não. Tem mais: com o crescente aumento do consumo cultural nas casas por quem tem acesso a esses bens (é inegável e triste a constatação que uma volumosa parcela da sociedade não terá o privilégio de usufruí-los), fica bastante evidente que bons trabalhos não nascem à toa. A série de que você gosta de assistir? Há uma equipe gigantesca por trás dela que precisa se sustentar. O livro que você gosta de ler? A cadeia produtiva é igualmente robusta, merecedora de ininterrupto auxílio.

Assim, se realmente a cultura for encarada com outros olhos, a partir desse período em que tudo é posto em xeque, que seja para exaltá-la na totalidade, compreendendo não apenas o produto final, mas os esforços que o levaram a ser útil. E que se perceba a necessidade do próprio fazer artístico: não se trata somente daquilo que nos consola em momentos de aflição. É a mola propulsora para a mudança.