Editorial: A retração do petróleo

O impensável está acontecendo nestes dias nos Estados Unidos: sem ter lugar para estocar o petróleo que sai do chão norte-americano, suas empresas produtoras são obrigadas a pagar até US$ 30 por barril a quem os armazene durante esta crise sanitária mundial. Há um mês dias, o preço do petróleo do tipo Brent, o mais negociado nas bolsas, beirava os US$ 60 por barril. No começo desta semana, ele girava em torno de US$ 25.

O acontecimento, de natureza econômica, está inscrito no contexto de uma crise grave e sem precedentes na história humana e, é esperado, que tenha consequências futuras. Ainda que acidental, a queda do consumo de petróleo convida à reflexão sobre os usos desta fonte energética. Desde março, é documentada a drástica emissão de gases poluentes em diversas partes do mundo. Na China, por exemplo, as emissões de CO2 foram reduzidas em 25%, em um período observado de duas semanas, com o país asiático adotando o isolamento social determinado pelo Governo. Foi modesta a retração, frente aos 50% visto em Nova York (EUA). Ainda que seja esperado um aumento e posterior normalização dos níveis, com o fim da crise, o balanço de 2020 será de menos poluição do que nos anos precedentes.

O consumo de combustíveis oriundos do petróleo - que ainda representam mais de 80% de todas as fontes de energia - caiu como consequência da redução da demanda de alguns de seus produtos. Sofreram retração, em especial, os derivados usados no setor automotivo e para fins industriais. A Covid-19 está mantendo em casa as populações de todo o mundo, onde as atividades econômicas consideradas, por ora, não essenciais estão suspensas. As empresas aéreas, intensivas consumidoras de querosene de aviação, mantêm no chão suas frotas de aviões. Nas estradas mundiais, o tráfego de caminhões - 90% dos quais consomem óleo diesel - também foi drasticamente reduzido como consequência da diminuição da atividade econômica.

Considerando a ampliação do mercado de veículos movidos a energias limpas e renováveis, já na década passada a Agência Internacional de Energia antevia um declínio do uso de combustíveis fósseis em certas atividades produtivas. O ano de 2035 havia sido fixado como o marco inicial desta curva descente da demanda pelo petróleo. Especialistas de uma gigante do setor, a anglo-holandesa Shell, já em 2017, projetavam que isto poderia acontecer em 2020.

Um acontecimento como a pandemia da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2), a Covid-19, não estava no horizonte de expectativas e não poderia ter sido considerado como variável nestas projeções.

A redução da poluição nas cidades - oportuna, em especial quando se enfrenta uma grave doença respiratória - é um dos poucos efeitos colaterais positivos da crise da Covid-19. Contudo, não se deve esquecer que o cenário é de exceção. Não se pode imaginar uma mudança drástica e radical nos padrões de consumo pré-crise, mas como em diversos ramos, é de se esperar um espírito de revisão e invenção nos novos tempos que se seguirão ao ansiado fim da pandemia. Que o gênero humano saiba tirar, destes tempos de adversidade, o melhor das lições por eles trazidas.



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