Editorial: A doença do atraso

A tuberculose é um mal associado ao passado, ameaça letal identificada pela Medicina no século XIX, que fez tombar um sem número de figuras de destaque, em especial os artistas que cultuavam a vida lúgubre. Registros de seus sintomas reforçam a suspeita de que ela já estava presente entre os gregos da Antiguidade. Contudo, a doença venceu o tempo e ainda hoje é um desafio à saúde que requer atenção e enfrentamento, sob pena de que leve ao pior.

O bacilo de Koch (Mycobacterium tuberculosis) é bactéria causadora da enfermidade. Ela invade os pulmões e provoca danos potencialmente fatais. Cerca de 10% das infecções latentes evoluem para tuberculose ativa, a forma agressiva da enfermidade que, quando não tratada de maneira adequada, pode levar a óbito. Ainda que o diagnóstico seja facilmente realizado e o tratamento leve à cura, a tuberculose é um problema de saúde pública grave, na avaliação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados do organismo internacional dão conta de 10 milhões de novos casos/ ano em todo o mundo. 

No Brasil, a média anual de notificação é de, aproximadamente, 70 mil novos casos. Destes, cerca de 4,5 mil levam a óbito. Gratuito e disponibilizado no Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento dura no mínimo, seis meses, e exige acompanhamento intensivo.

O Ceará registrou um crescimento no número de casos entre 2015 e 2018. No período, houve um aumento de 11,95% dos casos confirmados de tuberculose; passou-se de 4.014 para 4.559 ocorrências. Comparando-se com números nacionais, compilados pela base de dados Datasus, do Ministério da Saúde, observa-se que o Estado é o sétimo do País, e o terceiro no Nordeste, em novos diagnósticos da doença.

Os números de 2019 ainda não foram consolidados, mas o levantamento parcial da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), considerando registros feitos até 21 de dezembro, indicam que pode ter havido um recuo acentuado. Neste intervalo de tempo, teriam sido confirmados 3.543 casos em todo o Estado. Fortaleza concentrou a maior parte dessas notificações – 1.531 casos, com 36 óbitos; e foi seguida por Itaitinga, também na Região Metropolitana, que figurou com 277 confirmações e duas mortes.

A reação do sistema imunológico do indivíduo ao contato com a bactéria é determinante para a manifestação da doença, em sua forma mais agressiva. Não à toa, sua incidência é maior em grupos que vivem em situações de precariedade, caso de alguns povos indígenas sem acesso regular aos serviços de saúde pública; pessoas infectadas com o vírus HIV, que não façam o tratamento adequado; população em situação de rua e privados de liberdade.

Enfrentar a tuberculose exige mais do que medidas clínicas. Claro, é imperativo que seja universalizado os serviços de saúde, com a disponibilização de estrutura capaz de promover diagnósticos rápidos e tratamentos adequados. Contudo, é preciso avançar na melhoria de outros indicativos sociais. 

Reduzir as desigualdades sociais, combatendo a pobreza extrema; e evitar que pessoas sejam submetidas a condições insalubres de vida têm impacto na melhoria dos índices da doença. É preciso de esforços transversais para fazer da tuberculose, de fato, coisa do passado.