Editoria: Investimento certo

Desde o início da epidemia de Aids, na primeira metade da década de 1980, o HIV não deixou de preocupar as autoridades de saúde no mundo. No Brasil, os primeiros casos foram registrados nesta época. O País se uniu ao restante da comunidade internacional no sentido de encontrar formas mais eficientes de enfrentar a doença e de garantir mais qualidade de vida com aqueles que receberam seu diagnóstico. Em quatro décadas, tratamentos avançaram, programas públicos de saúde tornaram-se mais abrangentes e o preconceito persistente vem sendo confrontado com mais informação.

A história de enfrentamento da Aids, contudo, não é pontuada apenas por conquistas, mas atravessadas de revesses. Dado o que está em jogo – a vida e o bem-estar de milhões de pessoas, em todas as partes do mundo –, estes obstáculos não podem ser ignorados, exigem atenção metódica, para não frear avanços conquistados globalmente. Na última década, o Brasil caminhou no sentido oposto ao da média mundial, que registrou queda no número de novos casos da doença. No País, entre 2010 e 2018, houve um aumento de 21% no número de novas infecções, segundo dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids/ONU).

Na América Latina, outros países apresentaram performances animadoras. El Salvador, Nicarágua e Colômbia tiveram quedas acentuadas de novos casos, com decréscimos de -48%, -29% e -22%, respectivamente. Contudo, o desempenho de Brasil, Chile e Bolívia – todos acima de 21% de crescimento do número de infecções – acabou provocando uma alta da média latino-americana no período, 7 pontos percentuais.

A Unaids tem alertado para uma crise de prevenção. Os números  de financiamento global para a prevenção do HIV têm diminuído. E não adiantou o acordo firmado, em 2016, na Assembleia Geral da ONU, com a Declaração Política sobre o Fim da Aids. Dalí, saiu-se com o compromisso de ampliar o investimento nas respostas à Aids, nos países de baixa e média renda, para se chegar ao montante de US$ 26 bilhões aplicados em 2020. A meta está longe de ser conquistada. Os últimos dados consolidados, de 2018, contabilizaram US$ 19 bilhões – US$ 1 bilhão a menos do que havia sido disponibilizado para o mesmo fim, no ano anterior.

A apreensão da agência internacional e de especialistas da área é que, ao se descuidar na prevenção, os novos casos possam se multiplicar. A conta, se assim acontecer, será certamente mais alta. Trata-se, necessário reiterar sempre, de vidas humanas e do bem-estar das pessoas. Se não é o suficiente para convencer da necessidade do investimento, pode-se recorrer aos dados de uma pesquisa recente da equipe econômica da Unaids. Chegou-se ao quadro de que, para cada dólar investido na resposta à AIDS, há um retorno de US$ 6,44, numa combinação de fatores que vai da redução de gastos de saúde e, com menos pessoas afetadas pela doença, ao aumento da produtividade por habitante. O retorno varia de região para região. Na América Latina, é de cerca de US$ 5.

Há de cobrar, portanto, do poder publico um continuum de ações. Os investimentos são previdentes e comprovadamente vantajosos para o País, em seu enfrentamento desta grave epidemia.


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