Cajucultura ameaçada

Por falta de recursos financeiros e de um maior apoio do poder público, a cajucultura no Ceará - que durante um século a liderou na região Nordeste - é hoje uma atividade sob risco de extinção.

Enquanto o Vietnã consolida sua posição de liderança, expandindo suas exportações de amêndoa para o sempre ávido mercado dos Estados Unidos e Europa, o Brasil - que em 2011 era o quinto maior produtor mundial de castanha de caju - é hoje apenas o décimo quarto. Contribuíram para esse desastre os anos de baixa pluviometria que castigaram o Ceará e a região nordestina.

Além da avara natureza que negou as chuvas necessárias à produção de caju, deve ser levado em conta o alto custo que representa a substituição do cajueiral antigo pelo da variedade anã precoce, criada e desenvolvida aqui mesmo pelos pesquisadores da Embrapa.

O cajueiro anão ocupa menos espaço, tem uma copa de baixa altura que facilita a apanha da fruta e - o mais importante - uma produtividade três vezes maior. O cajueiro antigo, de copa larga e baixa produtividade, vem sendo atacado por pragas e doenças como a antracnose, a mosca branca e o oídio, para cujo combate os pequenos produtores, que são a quase totalidade do universo dessa atividade, não têm dinheiro.

Uma pesquisa divulgada em novembro do ano passado, pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), organismo do BNB, revelou que a cajucultura se depara com outros fatores que enfraquecem toda a cadeia: os cajueirais antigos de pouca produtividade e os baixos preços da castanha para o produtor inviabilizam os tratos culturais adequados.

Há, ainda, um baixo uso de tecnologias (mesmo as de menor custo), limitada assistência técnica e fatores climáticos adversos (irregularidade de chuvas e longos períodos de estiagem). Esses problemas têm contribuído para a queda acentuada da produção e das exportações.

Não obstante, há - pelo menos no Ceará - grandes exportadores que têm subsidiado a plantação da variedade anã precoce e oferecido assistência técnica a pequenos produtores do litoral Oeste do Estado, onde, por causa desses cuidados, a produção e a produtividade mantêm-se estáveis, assegurando a exportação da amêndoa.

Em 2017, o Ceará produziu 81 mil toneladas de castanha, equivalente a 60% da produção nacional.

Empresários cearenses da fruticultura que, até os anos 90 do século passado, produziram caju, alertam para a carência de atrativos para o investimentos no setor.

Além do alto custo para a implantação de uma nova floresta de cajueiro, eles argumentam que a Ásia não só dominou como ampliou o avanço tecnológico para a produção da fruta, beneficiando não só a amêndoa para exportação, mas também o pedúnculo. No Ceará, faz-se isso, também, mas com índices franciscanos de produtividade.

Há tecnologia disponível. O que falta para que a cajucultura cearense volte a ser uma atividade econômica rentável é uma política pública específica que financie a compra de mudas de cajueiro anão precoce, o trato cultural do solo e a oferta de assistência técnica. Isto custa dinheiro, e os tempos são de falta dele.