Com indústrias fora do lockdown, movimentação de cargas deve crescer no Ceará neste ano

Alta demanda global deve manter elevado valor do frete da China, encarecendo insumos para o setor produtivo e aumentando a pressão sobre o bolso dos consumidores

Legenda: Porto do Pecém já movimentou mais de três milhões de toneladas no primeiro bimestre, maior volume para o período em quatro anos
Foto: José Leomar

Uma das mudanças da aplicação de um segundo lockdown em cidades cearenses neste ano, além da extensão geográfica, foi excluir a indústria da suspensão das atividades presenciais. A exceção se deu pelos baixos índices de contaminação de empresas do setor e controle mais rigoroso de ambientes internos - mas com a decisão, o Estado também poupa um impacto severo na cadeia produtiva e evita um desarranjo logístico que sairia muito caro.

Apesar do cenário de muitas incertezas, a continuidade das atividades do setor industrial deve manter a movimentação de cargas em um patamar mais alto que no ano passado, impactado pelos lockdowns no Brasil e mundo afora. Apenas no Porto do Pecém, o fluxo caiu 12%, indo de 18 milhões de toneladas transportadas em 2019, recorde do terminal, para 15,9 milhões de toneladas em 2020.

Especialistas e fontes do mercado ouvidos pela coluna não se arriscaram a projetar um número de crescimento da movimentação, mas confirmaram que a tendência é que ela supere a do ano passado. Raul Viana, gerente de Negócios Portuários do Complexo do Pecém, diz que as perspectivas são as melhores possíveis.

"Até agora, a gente já movimentou mais de três milhões de toneladas. Somente em fevereiro foram mais 600 mil toneladas. O porto vem sinalizando esse crescimento mesmo em pandemia, demonstrando uma forte resiliência", aponta. "No ano passado, a gente teve (impacto) por um grande período em função das indústrias terem fechado, decretado inclusive férias coletivas. E as suas cargas ficaram suspensas".

Viana pondera, entretanto, sobre o risco de o atual lockdown se estender muito e em vários locais do País. "Caso haja algum impacto, vai ser de maneira um pouco mais para frente, se a situação se prolongar. Parceiros de outros estados, como do Piauí, do Maranhão, têm grandes importadores que trazem suas cargas através do Pecém. Se eles estiverem sofrendo esse tipo de impacto, certamente vai refletir aqui na nossa movimentação também de alguma forma", aponta.

Carlos Alberto Alves, gerente da Tecer Terminais Portuários, braço operacional do Porto do Pecém, destaca que os contratos fechados serão cumpridos. "Há contratos de pás eólicas que vão para os Estados Unidos, Europa, Austrália. Um incremento na importação de produtos siderúrgicos para a construção. A gente no final do mês vai exportar granito para a Europa. Tem ainda a retomada das atividades das termelétricas", lista.

O gerente de Negócios Portuários do Pecém ainda destaca que a ampliação do complexo segue ininterruptamente. "Estamos dando total seguimento aos planos de expansão do Complexo do Pecém com as obras do setor II da ZPE avançando em ritmo acelerado. Já temos 80% das obras concluídas. Quando o cenário melhorar, a gente vai ter uma estrutura pronta já para receber e ofertar a novos investidores, a possíveis novas empresas que queiram se instalar na área".

Impacto acumulado da pandemia

Porém, esse mercado ainda sofre hoje consequências do descompasso provocado pela primeira leva de lockdowns em diversos países no ano passado que, como uma tempestade perfeita, provocou uma escassez de contêineres na Ásia e fez disparar em mais de dez vezes o preço do frete marítimo. Expliquei como se chegou a esse cenário aqui

À época, previa-se que os valores exorbitantes do frete, que chegaram a passar de R$ 10 mil, já estariam mais normalizados em fevereiro ou março, mas eles continuam bem mais altos que antes da pandemia. E agora, a perspectiva é que esses preços não baixem tão cedo, mantendo elevada a pressão sobre a inflação.

"Já estamos vendo frete de R$ 6 mil, R$ 5,5 mil, então já melhorou. Não chegou no patamar pré-crise, mas também não deve chegar, porque o mercado está muito aquecido. Todos os países injetaram muito dinheiro na economia e isso aumentou muito o consumo. Com o consumo, vem o aumento da necessidade de carga", explica Larry Carvalho, advogado especialista em Direito Marítimo e presidente da YoungShip Brasil.

Esse cenário fez com que embarcadores recorressem, quando possível, ao transporte em carga geral para driblar os altos preços, como era feito antes da criação do contêiner na década de 1950. "Hoje, nós estamos atendendo clientes que eram 100% de contêiner, juntamente a esse fluxo de carga (geral) para o Pecém. Está existindo uma adequação, não é para todas as cargas, é para as possíveis", explica Carlos, gerente da Tecer.

Nesse caso, em vez de usar o contêiner para transportar a carga, ela vai no porão do navio, por exemplo. "Para poder fazer uma ligação, traz a carga que seria em contêiner junto de carga geral, onde tem outros clientes, aí você faz a logística de uma forma diferente, mas que dando a mesma segurança pro cliente final e também sua mercadoria. Com o custo mais barato, nesse momento".