EUA x BR: a desequilibrada mesa de negociações

A fome do governo por um alinhamento bilateral com os Estados Unidos prostrou o País a uma posição de subserviência

O alinhamento direto do Brasil com os Estados Unidos defendido a ferro e fogo pelo presidente da República Jair Bolsonaro ainda não rendeu vantagens ao País. Pelo contrário. Ao trazer de volta à tona a taxação sobre o aço e o alumínio (já taxado) nesta semana e ainda sob justificativa infundada, o presidente Donald Trump prova mais uma vez que não é "por amizade" que toma decisões.

Culpar o Brasil de desvalorizar a moeda artificialmente para melhor competir no mercado internacional não faz qualquer sentido.

No País, o câmbio flutua e o Banco Central intervém em momentos pontuais justamente para evitar a desvalorização exagerada do real, o que leva especialistas a procurarem outras razões para Trump ter tomado a medida. Contexto eleitoral? Aproximação do Brasil com a China? 

A realidade é que o presidente americano segue fiel ao seu slogan de campanha, America first. Só interesses americanos lhe importam.

Aqui abaixo da linha do Equador, porém, não tem sido bem assim.

O governo brasileiro já cedeu diversas vezes em negociações com os Estados Unidos neste ano, até demais, e pouco recebeu de volta.

  • Concordou em tirar tarifas para importar 750 mil toneladas de trigo americano;
  • em aumentar a importação de etanol dos EUA sem impostos mesmo sob protestos dos produtores nacionais;
  • em abrir mão do status de nação em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC), que garantia benefícios como regras mais flexíveis ao Brasil;
  • em ceder a exploração da base espacial de Alcântara, no Maranhão;
  • em não mais exigir visto de americanos sem qualquer reciprocidade para os brasileiros. 

De volta, só vieram frustrações. O prometido apoio americano para a entrada do País na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) não veio e o governo brasileiro ficou só com a promessa de que seria "o próximo da fila".

A retirada de taxas sobre a exportação do açúcar nacional para os Estados Unidos não avançou e o veto às exportações da carne bovina brasileira in natura segue mesmo após Bolsonaro ter pedido sua derrubada pessoalmente ao presidente americano quando o visitou em março.

Vale lembrar ainda que em visita ao Brasil, em julho, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, disse que era importante que não houvesse nada no acordo entre o Mercosul e a União Europeia (fechado após uma negociação de 20 anos) que fosse contraditório a um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

Canal aberto

Em reação ao anúncio das taxas de aço, o que surpreendeu até a própria equipe diplomática norte-americana, Bolsonaro disse que usaria "canal aberto" que possui com Trump para conversar sobre a decisão - o que não parece ter dado resultado, já que ele fez questão de não dizer nem sim nem não quando questionado no dia seguinte se havia conversado com o líder americano.

"Liguei, não liguei, falei, não falei", disse o presidente da República a jornalista sobre telefone a Trump

A equipe diplomática brasileira agora se debruça sobre estratégias para explicar como funciona a política cambial do País a Trump e mostrar como a sobretaxa prejudicaria as próprias indústrias americanas - para isso deve unir forças com a Argentina, também alvo do ataque do presidente americano.

Isto é, se o governo brasileiro for capaz de manter uma estratégia conjunta com o país vizinho, apesar das diferenças ideológicas, para garantir os interesses de ambas nações, que é evitar a medida protecionista americana. 

Ironicamente, a estratégia exigiria um alinhamento do Brasil com o país a ser em breve governado pelo peronista Alberto Fernández (a quem Bolsonaro já mandou dizer que não irá à posse presidencial, quebrando o decoro diplomático contra importante parceiro comercial do Brasil), para fazer frente ao "amigo" americano.

Reações

Sob ameaças como a que Trump fez ao Brasil, outros países reagiram com força. União Europeia, China, Turquia, Rússia, Índia, México e até o Canadá impuseram tarifas contra produtos dos Estados Unidos em retaliação às sobretaxas impostas pelos americanos.

Aqui, o presidente disse que "não é porque um amigo meu falou grosso numa situação qualquer que eu já vou dar as costas para ele". 

O princípio não está errado - a diplomacia requer mesmo paciência. Mas não é um amigo, nem uma situação qualquer. É novo revés contra um país que já cedeu demais.

A fome do governo por um alinhamento bilateral com os Estados Unidos prostrou o Brasil a uma posição de subserviência. O governo americano reconhece essa situação e a utiliza para avançar sua agenda de interesses. O interesse nacional tem que estar acima de ideologia, inclusive a do presidente, e à economia brasileira não interessa fazer amigos nem inimigos, mas proveitosos e equilibrados parceiros comerciais e diplomáticos.

A mesa de negociação entre Brasil e Estados Unidos não é somente desigual. É praticamente inexistente, onde um dita as cartas e o outro obedece.