Desafios do Mercosul

Novas parcerias do bloco sul-americano, entre as quais a com União Europeia, exigem pragmatismo e convergência dos interesses das lideranças dos países membros

Com quase trinta anos de existência, o Mercosul inicia novo capítulo de sua história ao concluir as negociações com a União Europeia e com o Efta, bloco composto por outras quatro nações europeias – Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein –, saindo enfim do isolamento em que esteve até então. Ainda que precisem enfrentar diversos obstáculos até serem aprovados, os acordos têm grande potencial para todos os mercados envolvidos.

No entanto, as diferenças político-econômicas entre as lideranças do Brasil e da Argentina, cuja aproximação deu surgimento ao Mercosul, põe em teste a maturidade dos governos dos dois países para defender os interesses comuns e promover o fortalecimento do bloco.

As diferenças ideológicas entre os governos de Jair Bolsonaro e de Alberto Fernández, mesmo opostas, não podem se sobrepor aos interesses nacionais

Bolsonaro já chegou a pôr em dúvida a permanência do País no bloco quando disse, no fim de novembro, que “tudo pode acontecer na vida da gente” ao ser questionado se o Brasil deixaria o Mercosul devido a mudança política na Argentina. Antes disso, o ministro da Economia já dizia que o bloco não seria prioridade. Jogar fora essa construção histórica – não só econômica, mas política, social e cultural – para se relacionar apenas de forma bilateral com outros países seria um verdadeiro retrocesso e deveria estar fora de cogitação. 

Afinal, os governos vêm e vão, mas o Mercosul fica.

Apesar das provocações de ambos os lados, os ânimos parecem ter se arrefecido e, ao tomar posse na última terça-feira (10), o novo presidente argentino disse que buscará boas relações com o Brasil, prometendo ainda fortalecer o Mercosul e apostar na integração regional. A presença do vice-presidente Hamilton Mourão na cerimônia também poupou o País de uma desfeita maior com o país vizinho.

Bolsonaro, que se recusou a participar do evento e até a enviar um membro do primeiro escalão, teve que ceder devido a relevância da Argentina para a indústria nacional. E não tinha alternativa mesmo. A Argentina é o principal mercado brasileiro para produtos manufaturados – não se pode ignorar o impacto que ela tem sobre o setor industrial.

Mas a entrada do peronista no governo também põe em dúvida o futuro do bloco - que pode ficar novamente emperrado se a Argentina voltar a impor barreiras tarifárias até a produtos de parceiros do bloco, como fazia à época da agora vice-presidente Cristina Kirchner. A pretensão de reduzir a Tarifa Externa Comum (TEC) entre os países do bloco, proposta pelo Brasil, também é incerta por Fernández já ter demonstrado suas reservas a essa questão.

Os países-membros do Mercosul têm ainda muitos desafios a serem superados, como a preparação para a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, prevista para o fim de 2021. A indústria nacional não poderá aproveitar a redução de tarifas no mercado europeu sem que haja reformas estruturais e medidas de desburocratização para melhorar a competitividade das empresas, além de necessária modernização dos parques industriais.

Para que o bloco avance e os países tenham a chance de crescer, Brasil e Argentina, assim como os demais países-membros, precisam cooperar e trabalhar juntos – com pragmatismo e diplomacia – pela defesa dos interesses nacionais.