Futebol brasileiro é o que mais demite treinador

Como a linguagem dos números é oposta a do ser do ser humano, não sou muito chegado.

Não a desprezo, por reconhecer sua utilidade estatística, pois, hoje, se conta até lançamento de cuspe à distancia.

Pois é. Um estudo estatístico da UEFA, realizado na temporada 2014/2015, mostra o futebol brasileiro com troca de treinadores em 90% dos times.

A princípio, achei o percentual assombroso e, aos poucos, fui me convencendo de que é isso, mesmo.

Quem se animar a atualizar esses dados vai perceber que o quadro pouco se modificou.

A explicação, de tão prosaica e enjoativa,  está na boca de todos: “É uma questão de cultura”.

O cultural em questão é composto de imediatismo da cartolagem, logo acompanhado pelos torcedores.

Tudo começa pelo desprezo ao planejamento, diríamos, de razoável prazo, já que se torna impraticável o prazo longo.

Todo mundo fala com “autoridade” de que seja preciso tempo para um treinador implementar um modelo de jogo.  Mas, poucos têm a coragem de respeitar esse tempo indispensável a uma coisa chamada sequência.

Achar que é realista cobrar resultados 15 dias após um treinador assumir, começar em janeiro com duas semanas de pré-temporada para os campeonatos estaduais de jogos, que não valem muito, mas servem para demitir treinador.

Mais do que em outros lugares, somos reféns de resultados.

Não acho que o treinador deva ser absoluto, mantido no cargo a qualquer preço, mas admitir o critério de três resultados negativos como razões para uma dispensa é ridículo e desrespeitoso.

Algumas dispensas se justificam, outras não, e isso desemboca num carnaval de interinos o tempo todo.

Os dirigentes começam errando na escolha de treinadores que não se encaixam nas condições que os times oferecem.

Vejam Botafogo e Fluminense, atolados em crises permanentes, imaginando que as constantes alterações de comando são panacéias para os seus males.

Essa situação implica num futebol de má qualidade, e, aos técnicos, resta optar por um jogo de reação: dar a bola e se posicionar para contra-atacar.

Reducionismo de sobra.