Europa, América do Sul e abismo no futebol

Num dos seus apreciados aforismos, Joham Cruyff, os dos maiores jogadores do mundo, projetista ao lado de Rinus Michels do magnífico estilo de jogo do Barcelona, afirmou que nunca viu saco de dinheiro jogar.

Sua afirmativa, em parte, tem razão e pode ser ancorada no que se assistiu no Flamengo X Liverpool.

O time inglês custa cinco vezes mais do que o brasileiro. No entanto, as sobras que apresentou no jogo não mostraram diferenças alarmantes.

Claro, estamos falando de apenas um jogo e um resultado, insuficientes para avaliações de maior profundidade, embora reconheçamos o tamanho do abismo entre o futebol europeu e sul-americano.

É, aí, onde entra a história do saco de dinheiro, como alavanca para uma posição mil vezes vantajosa do futebol europeu.

É bom que se diga o seguinte: o esporte mais popular do Mundo nunca foi tão rico como hoje na Europa, e demandou tempo e extraordinárias mudanças para alcançar o atual patamar.

Basta dizer que o Flamengo, campeão do mundo de 1981, seria impossível nos dias de hoje. Júnior, Andrade, Adílio, Zico, Tita, Nunes e, quase o time inteiro, estariam jogando nas grandes equipes do velho continente.

Ainda foi possível a São Paulo, Internacional e Corinthians levantar a taça em anos seguintes, mas, logo depois, os times europeus iniciaram uma escalada impressionante de poder por meio de suas milionárias competições.

Clubes se transformaram em indústrias de entretenimento e corporações financeiras impressionantes. Compraram o espetáculo-futebol do Mundo.

Nas disputas de mundiais, diante de Barcelona e Real Madrid, Santos e River Plate foram derrotados e humilhados.

O futebol sulamericano, impossibilitado de vender o espetáculo, passou a negociar os seus principais artistas, definhou e passou a ser desinteressante para o resto do planeta. Não passa de um fornecedor de pé de obra.

O Liverpool é uma seleção multiracial, formada por jogadores de vários países, incluindo o Brasil, e dirigida por um treinador alemão.

Em entrevista, logo após a derrota para o Liverpool, o presidente do Flamengo Rodolfo Landim, declarou: “Flamengo terá que participar da elite européia de algum jeito”.

Concordamos plenamente, desde que esse “algum jeito” inclua uma revolução no futebol do Brasil.

A estruturação empresarial e jurídica que permita investimentos, aliada à formação de uma liga de clubes, seria um bom começo.

Se não for assim, nunca chegará nem perto. Não acham?