A compulsão por contratações no futebol cearense

Por obra e graça, também, da crônica esportiva, o torcedor cearense passou a cultivar, há bastante tempo, uma mania incontrolável por contratações.

Por conta disso, os dirigentes sempre embarcaram nessa muvuca, para agradar a massa torcedora e se dar bem em matéria de popularidade.

Lá pelo anos 1960, o presidente do Ceará, Elias Bachá, adotava uma estratégia para o dia após a realização de um clássico, dependendo do resultado.

Em caso de vitória, tudo bem, sem novidades; já para uma derrota, deixava na agulha, como antídoto ao mal resultado, uma contratação.

Claro que eram tempos de um profissionalismo com tintas de amadorismo, mas a medida funcionava bem para aplacar a ira da torcida.

Outro aspecto que cercava as contratações, dizia respeito a um preconceito de ordem regional.

Explico: se o jogador viesse do Piauí, Maranhão, Paraíba ou Alagoas, se observava um certo muxoxo como desaprovação, já que o ideal era trazer o contratado do “sul maravilha”, como nos referíamos ao sudeste.

Se esse comportamento fosse cumprido ao pé da letra, o Fortaleza não teria trazido do Maranhão o artilheiro Croinha, um dos maiores ídolos de sua história.

Quem insistiu para que o jogador fosse adquirido foi o saudoso Moésio Gomes, ex-jogador e treinador do Leão do Pici.

Do vizinho estado de Pernambuco, aceitava-se um nome, desde que fosse bem conhecido e bom de bola.

Dunga, centroavante goleador, foi adquirido junto ao Santa Cruz, pelo Ceará, e o time pernambucano exigiu, como contra-peso no negócio, a vinda de um atacante chamado Gildo Fernandes de Oliveira.

O pernambuquinho, aqui, chegou com séria contusão no joelho e teve que passar por longo tratamento. Dunga, o famoso na história, fracassou, e Gildo tornou-se o maior ídolo da torcida alvinegra de Porangabuçu.

O fato, é que todos – dirigentes, torcedores e imprensa – foram tomados por uma tremenda compulsão por contratações, por cima de paus e pedras, alimentando-se das aquisições impactantes, bombásticas como mísseis.

E aí, na nossa opinião, carregamos um tremendo equívoco ao não distinguir contratação de reforço, sendo este último o que deveria ser o primordial.

A inquietação não é pouca coisa. O Ceará tem ido em busca de reforços com mais avidez, alertado pelas agoniadas participações nos anos 2018 e 2019.

O Fortaleza, mais contido, concentrou-se em manter o que tem de melhor no elenco, sem abrir mão de reforços escolhidos de maneira meticulosa.

Dinheiro não nasce em árvores e a aquisição de jogadores é tarefa para quem sabe escolher com esmero, conhecimento do mercado e responsabilidade.