Fila do INSS é fruto de amadorismo e negligência

Autoridades falharam em antever crise previsível, e população vulnerável paga caro

Por vários meses, a reforma da Previdência esteve entre os assuntos mais abordados na esfera pública. Houve amplo debate político, veiculação de propagandas institucionais, vasta cobertura na imprensa, embates e muitos memes nas redes sociais. A longa tramitação nas Casas Legislativas se justificou pela complexidade da pauta, considerada essencial para a sustentação fiscal do País e com repercussões práticas na vida de milhões de trabalhadores.

Mas nem a magnitude extraordinária do projeto foi suficiente para que a gestão federal se planejasse para o mais que previsível crescimento da demanda pelos serviços do INSS. O resultado da gritante negligência das autoridades é uma fila de aproximadamente 1,3 milhão de pedidos em compasso de espera. No Ceará, pelo menos 97 mil pessoas aguardam a aprovação de benefícios, muitos dos quais idosos e pessoas com deficiência, gente cuja condição social demanda pressa. 

Sendo as carências estruturais do INSS velhas conhecidas e adicionando o fato de que as novas regras das aposentadorias naturalmente causariam uma corrida às agências, por óbvio ululante, o Planalto deveria ter montado uma operação especial de reforço no atendimento, pelo menos até o tsunami pós-reforma passar. A capacidade de planejar e se antecipar a problemas é uma característica basilar para qualquer gestão e deveria fazer parte dos protocolos fundamentais na administração pública, sobretudo em áreas relevantes como a previdenciária. 

Além da falha injustificável no prevenir, o Governo parece errar também no remediar. 

Soa atabalhoada a convocação de sete mil militares para executar um trabalho que demanda conhecimento técnico específico de legislação previdenciária e de benefícios sociais. Um tipo de medida apressada e pouco efetiva, tomada apenas no intuito de dar alguma resposta à crise.

A dramaticidade do caso reclama mais do que meras gambiarras.