Do BBB à cloroquina: tudo é motivo de polarização na quarentena

Alas extremas esforçam-se para manter guerra entre esquerda e direita aquecida, ainda que isto em nada contribua para o País

Enquanto o mundo tenta encontrar formas de superar a hecatombe sanitária e econômica causada pelo novo coronavírus, algumas forças políticas continuam manobrando para manter o País no limite da polarização. Basta uma olhadela nas redes sociais para perceber a gigantesca quantidade de energia que ainda é gasta com assuntos inócuos.

Nas últimas semanas, os especialistas em criar embates barulhentos e estéreis invadiram novos terrenos na tentativa de transformar qualquer coisa numa disputa política. Qualquer coisa mesmo.

Como se não tivessem uma crise sem precedentes para lidar, políticos influentes (Eduardo Bolsonaro e Fernando Haddad incluídos) engajaram-se numa colisão por votos… no paredão do Big Brother Brasil 20. Os agentes da polarização conseguiram transformar a disputa entre Felipe Prior e Manu Gavassi numa guerra entre esquerda e direita. Diante da vitória de Manu, houve até quem avaliasse o resultado como uma guinada anti-direita e uma suposta derrota para o Governo Bolsonaro.

Padecendo de uma seca interminável de conquistas, parte da esquerda purista parece disposta a comemorar qualquer coisa como se fosse título de Copa do Mundo, o que só mostra o quanto esta ala se deixou apequenar nos últimos anos. Perdeu espaços nas políticas sociais, na segurança pública, na área econômica e em praticamente todos os demais campos de debate. Não é, portanto, um paredão de BBB que vai mudar magicamente o cenário. 

O ímpeto de transformar tudo num interminável Ceará x Fortaleza também parte do outro lado. O bolsonarismo tem produzido narrativas dicotômicas em larga escala. Adotou a cloroquina como uma pauta própria, ao ponto de criar uma bifurcação: quem defender a medicação é de direita e quem criticá-la é de esquerda. 

Mas tratar ciência como ideologia é de colossal irresponsabilidade.

À ciência, interessam apenas fatos, resultados, evidências. O achismo de uma ou outra corrente não vai mudar a condução científica sobre o assunto, o qual ainda carece de pesquisas e está sendo avaliado com cautela por pesquisadores ao redor do mundo. 

Está evidente que nem mesmo em situações excepcionais, o bolsonarismo e o lulopetismo abrem mão de manter a alta temperatura das discussões, ainda que em torno de temas nada construtivos. 

Felizmente, as intrigas contraproducentes não chegaram aos estados. De modo geral, os governadores, mais interessados em resolver problemas reais, têm se apresentado como ponto de equilíbrio nesta crise, e recebem apoio popular. Isso, sim, pode dar abertura para uma guinada política no futuro breve.