3 razões por que o filme ‘Parasita’ tem tudo a ver com o Brasil

Problemas sociais retratados no filme são ainda mais exacerbados no Brasil do que na Coreia do Sul

Um dos motivos para o fenômeno estrondoso do filme sul-coreano ‘Parasita’ é o fato de ele discutir habilidosamente um problema escancarado, com o qual praticamente todo habitante de grande cidade se depara diariamente. Não é preciso ser dos observadores mais argutos nem conhecedor de estatísticas sociais para perceber que a desigualdade está em plena escalada.

Recente análise do jornal Washington Post lembra, no entanto, que a Coreia do Sul está longe de ser um exemplo emblemático de contraste social. No ranking do Banco Mundial de concentração de renda, o país asiático está mais bem posicionado do que Alemanha, França, Reino Unido e Austrália, por exemplo.

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E o Brasil com isso? Bom, em todo o Ocidente, ninguém supera o Brasil quando o assunto é desigualdade. No pódio do Banco Mundial, só a África do Sul tem um abismo social maior. E isso leva à reflexão de que, a julgar pelas feridas socioeconômicas abordadas no filme, ‘Parasita’ tinha tudo para ser uma produção brasileira. Eis alguns dos motivos:

  • CONCENTRAÇÃO DE RENDA NO BRASIL É MAIS QUE O DOBRO DA SUL-COREANA

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Nós somos os verdadeiros reis da desigualdade, ícones consagrados das discrepâncias de renda. Sai pra lá, Bong Joon-Ho, esse Oscar deveria ser nosso. Conforme dados da ONU, na Coreia do Sul, a fatia 1% mais rica acumula 12,2% das riquezas; enquanto no Brasil os mais endinheirados detém 28,3% da renda nacional.

No caso de Fortaleza, pelo menos 204 mil famílias vivem com renda de R$ 89 por pessoa, o que contrasta com o potencial econômico de uma das maiores cidades do País.

  • INFORMALIDADE E PRECARIEDADE NO MERCADO DE TRABALHO

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Em ‘Parasita’, a família Kim - antes de conseguir bons empregos na casa dos Park - fazia bicos produzindo embalagens de pizza para uma pequena empresa. Ora, quando o assunto é informalidade, o Brasil também é dominante. Desde a última crise econômica, que ainda ricocheteia sem parar no mercado de trabalho, o emprego formal virou artigo de luxo. 

A saída de milhões de brasileiros tem sido recorrer a postos de trabalho precários e instáveis. Em Fortaleza, por exemplo, basta pôr os pés na rua para ver uma avalanche de entregadores de aplicativos, os quais são mal remunerados e vulneráveis a todo tipo de intempéries sociais, meteorológicas e de trânsito. Sim, ‘Parasita’ poderia ser um filme cearense.

  • PROBLEMAS NO SANEAMENTO BÁSICO E MORADIA

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Em uma de suas sequências mais fortes, o vencedor do Oscar de Melhor Filme ilustra de forma brilhante como um evento simples como a chuva pode ser encarado de maneira totalmente diferente por pessoas que se encontram em classes sociais distintas. 

Para o abastado, a chuva pode ser um fenômeno lindo, um símbolo de purificação; mas, para o pobre, em decorrência dos problemas estruturais, a chuva pode significar terror, perda e até morte.

Trata-se de uma questão que tem tudo a ver com o cotidiano das nossas cidades. Para ficar apenas em um exemplo, Belo Horizonte recentemente viveu dias de caos por conta de enchentes. Mais de 50 pessoas morreram e milhares ficaram desalojados.

Segundo o Ranking da Universalização do Saneamento Básico, elaborado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), de 1.894 cidades avaliadas, 1.613 (ou o equivalente a 85%) estão longe de oferecer saneamento básico para toda a população. É um problema ancestral para cuja solução o Brasil nunca empreendeu a energia merecida, provavelmente porque as piores consequências normalmente se limitam às populações mais carentes.