Para analista da GloboNews, vitória de Biden seria "catastrófica" para o Brasil; leia entrevista

Professor de Política Internacional da Universidade Veiga de Almeida, comentarista na GloboNews, palestrante da Casa do Saber e criador e produtor de conteúdo do podcast Petit Journal, o carioca Tanguy Baghdadi se tornou uma referência brasileira nas análises da conjuntura mundial. Em entrevista exclusiva ao Sistema Verdes Mares, ele falou dos últimos capítulos da campanha da eleição presidencial norte-americana, marcada para o próximo dia 3 de novembro, e elaborou cenários sobre os possíveis desdobramentos da disputa para o Brasil e o resto do mundo.

Legenda: Tanguy Baghdadi é professor de Política Internacional, palestrante da Casa do Saber, criador e produtor de conteúdo do podcast Petit Journal e comentarista na GloboNews
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Após o diagnóstico de Covid-19 pelo Trump, criou-se uma grande incerteza sobre as próximas semanas, até o dia da eleição, no dia 3 de novembro. Essa notícia te pegou de surpresa, como todo mundo? Você consegue imaginar qual vai ser o impacto disso nos próximos atos de campanha do Trump?

Pegou de surpresa como 2020 tem pego a gente todos os dias. Não tem sido um ano exatamente normal. Parece que é a cereja no bolo de uma campanha eleitoral absolutamente atípica. Essa campanha eleitoral não é o padrão dos EUA. O que vai acontecer agora vai ser uma dúvida acerca como é que cada uma das campanhas vai lidar com esse fato: o presidente teve Covid diagnosticada, esse presidente teve uma relação absolutamente especial com a Covid, negando muitas vezes. E tem dois caminhos possíveis: já vou dizer qual eu acredito mais. Um: o Partido Democrata mostrar que o presidente foi irresponsável e, portanto, incapaz de conduzir o país diante de um momento de tanta dificuldade e incerteza. Do lado do republicano, do lado do Trump, ele vai tentar dizer que ele foi capaz de vencer o vírus tanto no corpo dele quanto no país e ele mostrou, portanto, que o vírus não é uma ameaça tão grande assim, que a gente não pode fechar a economia por conta da doença. Eu acredito que, dada a tendência das pesquisas, a narrativa dos democratas é mais factível, neste momento está colando mais. Acredito que, neste sentido, a doença do Trump desfavoreça a sua candidatura.

Quanto aos estados indecisos, os "swing states", as últimas pesquisas têm mostrado que Joe Biden tem avançado nesses territórios. Você acha que, mesmo com essas dificuldades da campanha do Trump, o colégio eleitoral nesses estados pode tomar decisões de última hora? Até que ponto essas pesquisas vão ser certeiras, já que nas últimas eleições muitas pesquisas erraram e diante da pandemia com muito pesquisadores evitando ir para rua, você acha que a metodologia das pesquisas pode ter realmente essa dificuldade de prever resultado principalmente nos estados cruciais para um vitória do Biden ou Trump?

O colégio eleitoral em si não muda. Quem decide, no final das contas, a composição do colégio eleitaral é o eleitor. São duas etapas diferentes, considerando que a eleição nos EUA é indireta: primeiro os eleitores, as pessoas, os cidadãos, vão para as urnas, votam e montam o colégio eleitoral. Nesse sentido, eu acho que os institutos de pesquisa tentaram aprender muito com a pesquisa de 2016, exatamente por conta do erro. Uma coisa que a gente tem percebido, por exemplo: diferentemente das eleições de 2016, a gente tem tido menos pesquisas nacionais, que realmente nos EUA não fazem sentido. No Brasil faz: você saber que um candidato é X por cento à frente do outro nacionalmente faz toda a diferença. Nos EUA, faz muita pouca diferença. Não interessa se o candidato está muito à frente do outro, se ele consegue uma boa composição do colégio eleitoral, ele vence a eleição. Então, as pesquisas deste ano passaram por uma série de reformas - foram muito criticadas na última eleição-  de modo exatamente a atender às necessidades, às particularidades da eleição americana. Eu acredito - não é garantido que vai acertar, mas parece que vai ser um pouco mais fidedigna do que aconteceu em 2016.

Quanto ao impacto na América do Sul, num eventual cenário de vitória do Biden, isso seria prejudicial para a política externa do Brasil, já que há um alinhamento do Governo bolsonaro com os republicanos? No caso da argentina, que tem um governo de centro esquerda, seria a grande beneficiada no caso de uma vitória de Joe Biden, falando regionalmente?

Para o Brasil, se o Biden ganhar, para o governo brasileiro, é catastrófico. Desde em 2019, o Brasil investiu apenas em um país nas suas relações, somente nos EUA. A gente não tem outro parceiro de fato importante, que a gente tenha cultivado. Nossos parceiros mais importantes se afastaram do Brasil: é o caso da Argentina, dos países europeus, a relação com a China é de desconfiança, de distância, de frieza. Não é uma relação muito positiva. Os EUA são, de fato, a grande relação do Brasil neste momento. O governo brasileiro, na verdade, optou por ter uma boa relação não com os EUA, mas com o Governo do Trump. A vitória do Biden seria, de fato, muito ruim para as pretensões internacionais do Brasil. Quanto a quem seria beneficiado? Não sei dizer. Não sei se a Argentina seria muito beneficiada, até porque me parece que o Trump nem sabe que a Argentina existe. Não ouve ele falar muito sobre a Argentina nem bem nem mal. Não consigo ver o Biden, por assumir a Presidência, estabelecendo um tipo de aproximação mais intensa ao Alberto Fernández, é muito difícil imaginar aqui na América do Sul, na América Latina, quem seria beneficiado por uma eventual vitória do Biden.

Nas últimas semanas, o mercado financeiro tem precificado um cenário de caos depois do dia da eleição, diante de uma possível recusa do Trump de aceitar o resultado, o que abriria uma crise institucional inédita e de certa forma nivelaria os EUA a outros países em que os próprios americanos denunciaram fraude em eleições, principalmente na América Latina. Você acha que é uma bravata ou é uma possibilidade real que os analistas estão vendo como possível de acontecer depois da eleição do dia 3?

O que é mais importante nisso é que a bravata já é um fato político, é muito importante. Nunca houve um cenário no qual um candidato à Presidência, ainda mais um presidente, um incumbente, alguém que está tentando a reeleição, sequer cogitar a possibidade de não aceitar o resultado das urnas. Isso é uma tradição democrática absolutamente consolidada nos EUA: você aceita o resultado das urnas e ponto. Não interessa muito se é bravata ou não. Não faço a menor ideia se o Trump vai ganhar ou perder, ou se ele vai reconhecer no caso de derrota. O simples fato dele dizer que possivelmente vai considerar que houve fraude e que por isso ele pode eventualmente não reconhecer o resultado das eleições já é um fato. A gente nem precisa chegar lá. Claro que chegar lá e ele não reconhecer, pior ainda. O fato de o mercado, dos atores de uma forma em geral olharem para esse cenário dessa maneira já é grave suficiente. Não acho que o fato de ser bravata a gente possa considerar que é menos grave.

Dentro do Partido Republicano, a gente percebeu nos últimos meses nomes importantes do partido retirando ou silenciando o apoio à reeleição de Trump, e até republicanos formando alianças para apoiar democratas. Esse isolamento político do Trump você acha que há alguma maneira de nas próximas semanas de ser revertido só com as características pessoais dele, só com esforço pessoal dele, já que o partido tem tentado se afastar um pouco da campanha dele?

Acho que pelo contrário: se for depender das características pessoais dele, vai ter mais afastamento ainda. É importante notar que o Trump não é um republicano tradicional, é muito diferente do Partido Republicano tradicional em termos de pauta, em termos de postura. Nesse sentido, me parece natural que os quadros mais tradicionais do Partido olhem para o Trump com uma certa desconfiança, como no caso do George W. Bush, que foi presidente por dois mandatos e é filho de um presidente, com mais um mandato, é uma figura muito importante dentro Partido e tem lá seus problemas com o Trump. Não declarou voto no Biden, mas os assessores dele fizeram um grupo de apoio a Biden. São pessoas que são do Partido Republicano. E o Trump faz isso relativamente de forma consciente: ele quer mudar o Partido Republicano, quer que o Partido Republicano deixe de ter o Ronald Regan (gestão 1981-89) como grande inspiração e que passe a ter o próprio Trump como inspiração.

A gente percebe que, em algumas pesquisas, principalmente na parte Sul dos EUA, onde é forte o fluxo imigratório, que alguns latinos -cito uma pesquisa do canal hispânico Telemundo, em que os latinos acharam que Trump venceu Biden no primeiro debate - isso não é contraditório isso, já que a retórica do Trump é considerada xenofóbico, contra a imigração?

Às vezes, a gente pensa sempre no latino como alguém que pensa com a cabeça de latino. Muitos desses latinos, na verdade, têm outras prioridades. Não necessariamente se eu sou latino, eu quero que tenha mais imigração. Pensa comigo: se você é um latino, está na Flórida, tem seu emprego, seu filho tem emprego também e está na faculdade, você não quer que chegue mais latinos, porque você vai dificultar seu filho de ter emprego, isso pode roubar seu emprego, isso pode trazer determinadas dificuldades que você não quer ter. Não é exatamente contraditório. A partir do momento em que você tem a cidadania, você também começa a pensar como um cidadão americano. Outras pautas são importantes também: qual dos dois, por exemplo, vai endurecer mais com Cuba? A maior parte dos latinos que está na Flórida, por exemplo, não gosta do governo cubano, não gosta do governo venezuelano. Qual dos dois vai ser mais capaz de endurecer? Por outro lado, qual dos dois vai ser capaz de inserir mais os latinos na política americana? É uma série de pautas que não são tão simples assim - "eu sou latino, eu apoio os latinos". Não necessariamente, às vezes "eu sou latino e quero os outros latinos longe daqui, eu não quero que eles estejam ocupando um espaço que eu gostaria que fosse só meu".

Quanto aos protestos antirracistas, nos últimos meses, desde o caso George Floyd, que a gente viu uma repercussão internacional, houve réplicas em outros continentes. Você acha que essa pauta do antirracismo vai ter algum peso? São realmente os democratas que vão obter algum tipo de ganho eleitoral com esse tema?

Não tenho a menor dúvida. Essa pauta é do Partido Democrata, que sempre levantou pautas identitárias e raciais. O Partido Democrata capitaliza muito bem isso. É uma pauta muito importante principalmente entre os jovens americanos. Pessoas que estão ali até 35 anos valorizam muito essa pauta. Acredito que vai ter um impacto bastante grande na eleição também. Isso tem feito com que o Trump esteja tão atrás nas pesquisas; porque você tem o eleitorado mais jovem que ou não vai votar ou vai votar no Biden, em parte pelas pautas identitárias.

Quanto à Rússia, na última campanha, a interferência russa, o chamado conluio com a campanha de Trump em 2016, isso praticamente dominou a discussão política nos EUA nos dois primeiros anos devido às investigações no Congresso, que acabou muitas saídas do Governo, mas diluiu. Apostava-se que isso provocaria um afastamento dele, e essa expectativa acabou sendo frustrada. O papel da Rússia nesta campanha agora pode também ter uma prepoderância?

A questão da interferência vai existir sempre, de qualquer maneira, porque é feita de forma institucional. Quando a gente fala em interferência, a gente sempre imagina alguém fazendo algo ilegal, entrando no servidor, não é nada disso. Na verdade, são russos que vão lá e patrocinam anúncios no Facebook, são empresas russas que patrocinam posts no Instagram, patrocinam grupos. Não é exatamente algo ilegal, algo que é feito nas sombras. Mas certamente é um debate que tem de existir. Agora, naturalmente o governo americano não tem interesse neste momento em fazer isso, porque ele foi beneficiado por essas campanhas que tinham exatamente por objetivo colocar o Trump lá. O Trump é muito benéfico para o Putin. Então, é um debate que certamente terá de existir ao longo dos próximos anos nos EUA.

Antes da pandemia estourar no começo do ano, a guerra comercial entre EUA e a China era o principal tema das análises sobre a economia americana. Recentemente, essa discussão voltou com a polêmica do TikTok (app chinês banido pela Casa Branca), e o Trump jogou a discussão sobre a segunda fase das negociações para depois da eleição. Para a China, o melhor seria uma derrota do Trump? Ou em um eventual governo Biden, esses conflitos comerciais tenderiam a agudizar também?

A pauta da China é uma pauta bipartidária nos EUA. Tanto o Partido Democrata quanto o Partido Republicano consideram que é necessário endurecer com a China. Não acredito que o Biden vai ser exatamente para a China muito melhor. Ele também vai pressionar a China, ele também vai encostar a China na parede. De qualquer maneira, agora o Partido Democrata tende a ser mais diplomático, tende a ser mais do fortalecimento do multilateralismo. E a China pode se sentir mais à vontade para negociar assim do que numa negociação bilateral, direta com os EUA. Neste momento, eu imagino que em Pequim se esteja pensando que um Governo do Biden seria melhor. Mas sinceramente acho que para a China tanto faz. A China continua fazendo negócio da maneira como sempre fez. Se forem os democratas, ela vai ter outras dificuldades. Nesse sentido, a China não se abala muito por uma eleição nos EUA. Pode mudar um pouquinho para um lado ou para o outro. A China tem uma solidez comercial, econômica junto aos EUA muito forte. Você tem uma interpenetração muito grande de temas que são importantes da China para os EUA, e vice-versa. A China não se abala muito com esse tipo de mudança de liderança nos EUA poderia ter. O Biden pode trazer algumas facilidades. Mas se for o Trump reeleito também, eles vão continuar lidando com o Trump como vêm lidando nos últimos quatro anos.

Você se arriscaria a fazer a elaborar algum cenário no caso de vitória do Trump? Seria um segundo mandato de caça às bruxas, de tentativas de vingança, de revanche contra os adversários? Ou você acha que tudo dependeria de como fica o controle do Senado, se ela vai realmente perder o controle do Senado?

É muito difícil imaginar: o ponto aqui que a gente tem de sempre levar em consideração como vai ser eleição? Se ele ganhar, como vai ser essa vitória? Se ele ganhar, é provável que ele ganhe o Senado junto. Se ele ganhar, significa que as pesquisas estão completamente equivocadas. Se estão equivocadas, as pesquisas estão equivocadas também em relação ao Senado. É possível que ele consiga maioria no Senado. Disso tudo depende a força que ele terá no segundo mandato. Um segundo mandato em que ele saía fortalecido faz com que ele tenha possibilidade de fazer todas as reformas todas que ele quer fazer: confrontar ainda mais a China, cortar mais impostos, por exemplo,  da população mais rica dos EUA como forma de atrair investimentos, colocar tarifações para entrada de produtos estrangeiros para atrair de volta empresas americanas que tenham eventualmente saído do país. Isso ele vai fazer com mais força. Também é possível que ele tenha, por exemplo, uma "vitória de Pirro": ganha, mas ganha sem o Senado, já não tem o Congresso, ganha com uma margem muito pequena de votos, isso coloca ele numa situação difícil também. O que é mais legal quando a gente olha para a História, e para a História sendo construída, não é apenas o que acontece, mas como acontece. Faz uma diferença enorme no resultado final.