Confira 7 tendências das eleições municipais de 2020

Realizadas em um contexto inédito de pandemia do novo coronavírus, as eleições municipais de 2020 colocaram em evidência diversas tendências políticas que vão desafiar partidos e grupos de cidadania nas próximas disputas. Confira sete aspectos que se destacam nas corridas municipais pelo País neste ano. 

Partidos nanicos competitivos

Siglas menores ganham espaço e ofuscam legendas maiores e tradicionais. Isso se deve ao uso das redes sociais. "O que há de diferente? Com a força das redes sociais, os antes partidos nanicos estão conseguindo se colocar na disputa de forma competitiva, ocupando espaços", observa Rodrigo Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acrescentando que a população está mais conectada devido à popularização dos celulares. É uma mudança histórica em relação à época em que eram exigidos dos candidatos o domínio da oratória clássica e a oferta de entretenimento em "showmícios". "A internet é mais barata e facilita atingir um público determinado".

Novos rostos da esquerda 

O PT de Lula deixou de ser a opção mais lembrada no campo de esquerda. Siglas como o Psol (que nasceu de uma dissidência dos petistas em 2004) e PCdoB conseguiram lançar candidaturas competitivas, como Guilherme Boulos (Psol) em São Paulo e Manuela D'Ávila (PCdoB) em Porto Alegre (RS). A rivalidade dos grupos de direita contra essas figuras da esquerda contribui para aumentar sua popularidade. "Em cidades que já foram governadas por partidos de esquerda, o eleitorado reage diferente, não vê a esquerda como esse demônio que a direita pinta. Eles (candidatos esquerdistas) acabam ganhando projeção nacional porque diariamente sofrem ataques nas redes sociais", avalia Prando.

Prioridade à saúde pública

O negacionismo da gravidade da pandemia tende a sofrer repúdio, pois as questões da saúde pública, como a defesa de medidas de isolamento social,  ganham preponderância. "Em São Paulo, vemos a curva de intenção de votos favorável à reeleição de Bruno Covas, que vem crescendo, enquanto Celso Russomanno vem enfrentando uma situação contrária, de queda acentuada. É importante lembrar que Russomanno é o candidato apoiado por Bolsonaro, que no combate à pandemia se posicionou de forma muito contrária às medidas sugeridas pela OMS e à própria ação de governadores e prefeitos", diz Rodrigo Gallo, cientista político e professor da Universidade São Judas Tadeu.

Discurso radical em baixa

Desde as batalhas do impeachment da presidente Dilma Rousseff e do início da Operação Lava Jato, os internautas brasileiros se acostumaram ao acirramento do debate político na internet, com trocas de ofensas, difusão de notícias falsas ("fake news") e agressividade verbal nos contatos. A retórica da grosseria, dos extremos, perdeu força neste ano de pandemia. "A polarização cansa, pois estressa a democracia.  A moderação de discurso é uma tendência", destaca o professor do Mackenzie, acrescentando que a estratégia de alguns candidatos de se distanciar dos extremismos ideológicos, acenando para o diálogo com os opositores, tem se mostrado mais eficiente do que falas raivosas.

Nordeste mais diversificado

A eleição de Bolsonaro em 2018 mostrou um "Nordeste vermelho", alinhado com as forças progressistas. Só que essa percepção pode ter virado um mito criado com base na leitura dos resultados das urnas da época apenas das capitais nordestinas, alerta Rodrigo Prando. "Há uma gradação de cores políticas na região", indica o cientista político, lembrando que há cidades menores em que há uma maior dependência dos recursos federais, o que torna seu eleitorado mais suscetível a apoiar candidatos ligados à direita, ao conservadorismo. A análise do especialista coincide com descobertas de recentes pesquisas mostrando um aumento da popularidade de Bolsonaro no Nordeste.

Gestão profissional

A pandemia da Covid-19 potencializou urgências de gestão pública. O eleitorado acordou para a necessidade de disponibilidade de vagas em hospitais, de leitos em UTIs, de respiradores. Administrações públicas que priorizam o profissionalismo da gestão da área da saúde, evitando indicações políticas, uma tônica do setor, tendem a ser melhor avaliadas pelos eleitores, como mostram pesquisas sobre o desempenho de líderes de estados e municípios. Com isso, espera-se o reconhecimento pelos eleitores de candidatos apoiados por governantes com melhores notas de avaliação de gestão.

Aliança ampla de apoios

Pela 1ª vez desde a redemocratização, o Brasil realiza eleições municipais com um presidente sem um partido. Eleito pelo PSL, Bolsonaro se desentendeu sobre a gestão da legenda no ano passado e tenta criar sua própria agremiação, o Aliança pelo Brasil, mas ainda não conseguiu reunir o número exigido de assinaturas. O presidente não conta com estrutura partidária para ajudar a eleger seus candidatos. Caso os nomes apoiados pelo presidente sejam derrotados, isso tende a ser atribuído a Bolsonaro, que sofre altas taxas de rejeição em capitais como São Paulo e Salvador. Em capitais como Belo Horizonte e Recife, amplas alianças de partidos em torno de um candidato ajudam a melhorar o desempenho desses postulantes nas pesquisas por atrair mais engajamento de setores mais diversos da sociedade.