Os Cordeiros e as Aves de Rapina

Comprimidos
Legenda: Na economia, uma das atividades que mais crescem com a ampliação das misérias humanas é a indústria de fármacos
Foto: AFP

Os ataques contínuos tramados por certos conglomerados midiáticos e principalmente por essa oposição raivosa, revanchista e inconsequente, não só para desgastar o presidente Bolsonaro, mas para proteger os bandos de ladrões com mandatos parlamentares, despertou-me uma reflexão acerca da crise de pessimismo que vem afetando a sociedade brasileira e ampliando o drama dos indivíduos pela sobrevivência, subsistência e pela liberdade nesses tempos pandêmicos.

Toda essa turbulência midiática que cotidianamente acossa os nossos espíritos, que modifica os nossos estados emocionais e que nos faz sentir estranhas sensações de revolta, é também elemento fundamental para o crescimento do oportunismo de uma série de atividades econômicas que assaltam o País com a proteção de servidores públicos larápios dos três poderes e também de certos núcleos acadêmicos que ignoram solene o drama de uma nação historicamente aviltada e vilipendiada por conivência e frouxidão das suas instituições fiscalizadoras.

No campo da economia, podemos dizer que, além da indústria da comunicação de massa e da indústria de matéria descartável, são duas as atividades que mais crescem com a ampliação das misérias humanas no século em curso: a primeira é a indústria da exploração social da fé, indústria que, através das suas ratoeiras monoteístas ou crucíferas, afirma-se como potência econômica.

A segunda é a indústria de fármacos, que oportuniza a precariedade da saúde pública nacional para agigantar-se com retrocedimento da renda social, introduzindo novos hábitos para estimular o consumo das suas manipulações químicas ou psíquicas.

Embora distintas entre si, essas indústrias se caracterizam por dois aspectos comuns: primeiro, pela capacidade de manter um elevado grau de dependência social; segundo, pela sofisticada tecnologia de produção de lucros crescentes e concentrados.

São atividades econômicas altamente rentáveis. A primeira porque cuida das nossas mazelas psicoespirituais e a segunda porque ameniza as nossas mazelas físicas. Em verdade são conglomerados oligopolizados que se fortalecem à medida mesma que a situação geral piora.

De aí se vê que a produção diária de notícias que objetivam tão somente ampliar a crise política em benefício de certas organizações criminosas vem aprofundando o desespero e o ócio, o desencanto de mundo, ao mesmo tempo, incentiva a ampliação do grau de dependência aos fármacos e aos preceitos que estão no âmbito do sagrado.

É de comprovada empiria que, de pelo menos um desses males (físicos ou espirituais) sofremos todos, sem nenhuma exceção à regra e, válido é, portanto, dizer que, quanto mais os políticos e gestores públicos larápios avançam com gana sobre os negócios públicos, mais desamparado vai ficando o indivíduo, sempre e cada vez mais carente de saúde física, financeira e espiritual, como se constata nos crescentes índices de suicídio e das atrocidades criminosas que afetam todo o nosso universo real e simbólico.

Por serem crescentes e aceitos o oportunismo das atividades aludidas, notadamente com o surto de ratoeiras deístas e com o aumento do contingente de viciados em fármacos e outras manipulações químicas, prudente é que se observe também o crescimento dessas representatividades políticas nos parlamentos, federal, estaduais e municipais.

Há ainda uma terceira atividade que, por rigor e ortodoxia macroeconômica ou por incoerência da cultura vigente, também cresce desenfreadamente. É a “indústria do desperdício”, essa que produz a matéria descartável, o lixo sintético reaproveitado.

Ora, numa economia sangrada na carótida por tantos programas de assistencialismo social; que despolpa; que recrudesce em qualificação para o emprego; que inibe o desenvolvimento econômico de regiões paupérrimas a pretextos ambientais ou preservacionistas, irracional é, portanto, fomentar atividades que têm no desperdício a sua alavanca mestra, em detrimento da produção do material durável, mesmo que isso contrarie o discurso que a sustenta, ou seja: em benefício da economia, da saúde, e da praticidade de uso e reuso.

Sem entrarmos no mérito dos problemas ambientais ampliados pela indústria de matéria descartável, convém atentarmos para o fato de que o desperdício gerado nos domicílios e que se acumula nas lixeiras é dinheiro que sai dos salários já minguados para avolumar os aterros sanitários das cidades.

Noutros termos, o que poderia ser riqueza distribuível converte-se em desperdício cumulativo e degradação ambiental, fatores estes que comprometem a economia, a saúde pública e o bem-estar geral.

Mas voltando ao ciclos de euforia e depressão social, que em parte decorre das históricas crises sociais e políticas durante a construção do nosso ocidental pensamento, antevê-se que, de euforia em euforia e de depressão em depressão, vai o indivíduo moral caminhando sorumbático, tal um andarilho sem alvo último e, por falta de perspectivas concretas, deixa-se arrastar, tanto pelas forças epistolares das instituições do Além, quanto se deixa afundar no lodaçal dessa política nacional imunda; o que nos faz invocar o conto de Nietzsche, Os Cordeiros e as Aves de Rapina, de cuja moral da história é: “Exigir da força que não se manifeste como força é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se manifeste como potência.”

* Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.