Pedido de demissão de Messi escancara soberba do Barcelona

Com uma lista de contratações equivocadas e que não renderam e em queda vertiginosa, equipe catalã colhe frutos da má gestão

Legenda: Após 8 a 2, Messi pediu para encerrar contrato com o Barcelona
Foto: Manu Fernandez / POOL / AFP

O atual episódio da possível saída de Lionel Messi mostra o resultado das más escolhas do Barcelona nos últimos cinco anos, desde a última vez em que foi campeão da Champions League. Na temporada 2014/2015, a equipe azul-grená voava em campo. O estilo de jogo tiki-taka de Pep Guardiola fazia render bons frutos ao time que jogava como videogame. Mas foi só a virada do ano para 2016 ocorrer que a máquina de títulos foi, ano a ano, sofrendo seus revezes até culminar com a humilhante goleada de 8 a 2 sofrida para o Bayern de Munique, na semifinal da Liga dos Campeões, neste ano. Uma goleada com o selo Seleção Brasileira contra a Alemanha em Copa do Mundo.

Naquele momento, o Barcelona somava cinco títulos europeus (1991/92, 2005/06, 2008/09, 2010/11 e 2014/15), além de três vices (1960/61, 1985/86 e 1993/94). Era um campeão em ascensão. Tinha tudo para dominar o continente por mais uma duas ou três temporadas seguidas. E depois, estar sempre ali brigando nas cabeças. Claro, não deixou de brigar nas cabeças. Mas foi só. O nível de competitividade foi caindo temporada após temporada.

Com 2019/2020, são cinco anos sem chegar em uma final de Liga dos Campeões. Marca ruim para uma equipe milionária e que tem (ou tinha) o melhor jogador de futebol do mundo. Nas últimas duas temporadas, até que o Barça ensaiou uma reação, mas sem espírito nenhum. Logo após o título sobre a Juventus, com show do trio MSN, foram três eliminações seguidas nas quartas de final (2015/2016, para o Atlético de Madrid; 2016/2017, para a Juventus; e 2017/2018, para o Chelsea). Em 2018/2019, para o Liverpool, e em 2019/2020, para o Bayern de Munique, ficou a um jogo da final, mas era melhor ter sido eliminado antes, dada as vergonhas que foram as exibições.

Legenda: Barcelona foi humilhado pelo Bayern de Munique na Liga dos Campeões
Foto: Manu Fernandez / POOL / AFP

Tudo fruto de uma gestão irregular e cheia de problemas de Josep Maria Bartomeu, que parou no tempo quando o assunto é futebol. Como todo clube no topo, seria comum que os concorrentes buscassem crescer para competir de igual para igual. Sem contar que, com o tempo, o elenco envelheceria e novas revelações precisariam surgir para substituir quem já havia dado muito pelo clube. Em um clube como o Barcelona, renovação é uma palavra que não sai de moda nunca.

Mas aí, quando Guardiola deixou o Barça para ir treinar o Bayern de Munique, foi o pontapé inicial do fracasso. Uma sucessão de técnicos que, em sua maioria, apenas tentou repetir o modo de jogar de Pep passou pelo banco de reservas. Quase ninguém deu certo. Tata Martino (2013-2014) e Luis Enrique (2014-2017) foram os que melhor se saíram. O argentino teve altos e baixos, mas estava montando um elenco consistente e tentando imprimir seu próprio estilo. Luis Enrique deu a última Champions ao Barça. Bartomeu foi responsável de Luis Enrique para frente. Mas estava na diretoria na época de Martino. Vieram depois, Ernesto Valverde (2017-2020) e Quique Setién, que não durou a pandemia. Foi meio que o Felipão do Barcelona.

O holandês Ronald Koeman, campeão pelo clube lá nos idos de 1991/1992, chegou com um objetivo claro: renovar o elenco e dar uma outra cara ao Barcelona. Foi preciso um 8 a 2 para que Bartomeu acordasse do sonho de achar que o Barcelona ainda era o mesmo de 10 anos atrás. Mesmo assim, não se sabe bem como será essa muidança. Se ela vai ser mesmo plena ou daquelas mudanças que apenas fingem ser mudanças.

Legenda: Koeman chegou ao clube com difícil missão de renovar o clube
Foto: Miguel Ruiz/Barcelona FC

E o pior é que Koeman já chega com a necessidade de ser antipático. Para mexer em figuras que estão lá há tanto tempo que poucos teriam coragem de demiti-los. Mesmo assim, já chegou dispensando Suárez, que ainda dá um bom caldo, mas que não se encontra mais na equipe. Terá ainda que lidar com Rakitic, Vidal, Piqué, Busquets e Alba. Na prática, o único veterano que interessa nessa renovação é Messi. É um símbolo e ídolo maior. Mas é Messi que não está mais interessado em ficar. Não tem mais confiança na presidência, na diretoria e muito menos no projeto.

Dos 20 anos de Barcelona, sendo 16 temporadas no elenco principal, os únicos cinco foram de queda, reforços caros e que não fizeram o time nem manter o nível, muito menos evoluir. Então, o que esperar agora? E Messi tem pressa de voltar a ganhar algo expressivo. Tem 33 anos e pouco tempo para tentar brilhar como antes. Não tem mais a vivacidade dos 20 anos. Precisa estar em um clube com projeto claro, definido e que o faça campeão de novo.

Foi € 1 bilhão em transferências de jogadores desde 2014, quando Bartomeu assinou. E jogadores que, em muitos casos, não chegaram a passar uma temporada. Alguém lembra ainda de Douglas, Arda Turan, Paco Alcácer, Umtiti, Deulofeu, Mina, Emerson ou Cucurella? Pois bem, são alguns dos 33 jogadores contratados neste período. Rakitic, Suárez e Ter Stegen são dessa lista. Assim, como Philippe Coutinho, Paulinho, Griezmann e De Jong, que passaram longe de serem plenos no elenco.

É como disse o Victor Canedo, um dos jornalistas que melhor cobrem o futebol internacional:

É como se o Barcelona fosse uma grande locadora de vídeo nos anos 2000. Ela sabia que novas tecnologias chegariam cedo ou tarde, mas insistiu em acreditar que o Blu-Ray, o DVD ou o VHS (dependendo da sua faixa etária) permaneceriam. Até ser engolida impiedosamente pelo mercado

Faltou humildade e sobrou soberba no Camp Nou...