Novo coronavírus é responsável por paralisação inédita no Campeonato Cearense

Em 1918, a gripe espanhola parou competições em outras partes do Brasil, como Rio de Janeiro e São Paulo, mas não impediu que o Estadual fosse disputado. Na época, o torneio local contava com apenas quatro equipes: Ceará, Fortaleza, Rio Negro e Hespéria

Legenda: Futebol cearense está em recesso com a pandemia de coronavírus
Foto: Camila Lima

A situação pela qual passa o Estadual 2020 é um fato inédito da competição, que existe desde 1914. São 106 anos de existência e essa é apenas a primeira vez que isso acontece. Para se ter ideia, nem as duas grandes guerras mundiais pararam o Campeonato Cearense.

Em 1918, quando a barbárie da 1° Guerra Mundial se misturou à pandemia de Guerra Espanhola, o Campeonato Paulista chegou a parar por três meses porque São Paulo começou a ter caso por cima de caso. Na volta, só os jogos entre equipes que mantinham chance de título foram disputados. Os outros foram descartados. Com isso, o Paulistano acabou campeão da temporada tendo jogado 15 jogos. O Corinthians foi vice com 17.

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No Rio de Janeiro, o campeonato também parou. Com um quadro mais grave de doentes (enquanto 6 mil morreram em São Paulo, no Rio, foram 12,7 mortes - incluindo o jogador do campeão Fluminense, Archibald French, e o presidente da República eleito, Rodrigues Alves), a então Capital Federal precisou parar o Estadual.

Outras estaduais, como o Catarinense e o Gaúcho também ficaram um período suspensos.

No entanto, no futebol cearense, o panorama foi diferente. A gripe espanhola desembarcou em Fortaleza no dia 28 de setembro de 1918, trazida pelo vapor Ceará, da companhia Lloyd Brasileiro. A embarcação vinha dos estados ao sul, onde a pandemia já tomava conta. Logo, ela chegou ao Interior do Estado. O escritor cearense Carlos Câmara tem um dos melhores relatos disso no seu livro "A Bailarina".

Pois bem, mesmo com os casos em andamento, o Campeonato Cearense, que contava com poucas equipes, foi jogado, é sagrou o Ceará como tetracampeão daquele ano, em final contra o Fortaleza, no primeiro Clássico-Rei da história. Só para situar o leitor, o Fortaleza havia sido fundado em outubro, quando o vírus já estava em solo cearense. Participaram ainda da competição, o Rio Negro e o Hespéria.

Aliás, em todos os anos da 1° Guerra Mundial, teve campeonato, amplamente dominado pelo Ceará. Em 1914, o Alvinegro ganhou ainda com o nome de Rio Branco. De 1915 à 1918, foi campeão já como Ceará.

Legenda: O time do Ceará dos anos 1910, campeão nos anos de guerra e gripe espanhola
Foto: Divulgação

Na 2° Guerra Mundial, mesmo com a presença real do exército norte-americano em solo cearense, e a Guerra batendo à porta, o Campeonato Cearense não parou de jeito nenhum. Nos sete anos de disputa, o Ceará venceu três vezes (1939, 1941 e 1942), o Maguari foi campeão em duas oportunidades (1943 e 1944), o extinto Tramways uma (1940) e o Ferroviario levou sua primeira taça da história (1945).

O detalhe curioso é que, de todas as sete edições, o Fortaleza só esteve presente em duas delas (1941 e 1944). O Leão do Pici só viria a ser vencedor no Cearense em 1946, no Pós-Guerra, quando o Ferrão disputava o bicampeonato, mas acabou como vice-campeão.

Depois disso, o Campeonato Cearense teve diferentes formatos, campeões e times, mas nunca parou de fato. Diferente de agora, quando a pandemia do novo coronavírus ganhou proporções mundiais tão grandes que as aglomerações nos estádios de futebol se tornaram inviáveis. E mesmo jogos sem torcida se tornaram temerária pela chance de contaminação até pelo suor entre os jogadores e outras pessoas que trabalham em uma partida de futebol.