Futebol, multidões e seis meses de pandemia

Ou como a explicação da "bomba biológica" de Milão, no dia em que a Covid-19 virou pandemia, pode servir de exemplo para as aglomerações nossas de cada dia

Legenda: Cerca de 40 mil torcedores foram de Bérgamo a Milão para ver jogo do Atalanta. Evento ajudou desencadear a Covid-19 na Itália
Foto: Miguel Medina/AFP

Nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2020, completam-se seis meses desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que a Covid-19 era uma pandemia, na época já espalhando-se por todo o mundo.

Este 11 de setembro marca o início de mais um fim de semana. Neste, completa-se uma semana do início do feriadão da Pátria. Pátria essa que se liberou, por conta própria, das medidas de isolamento e sanitárias e declarou o fim deste momento pandêmico por conta e risco. Como se fosse a festa da libertação desta pandemia na qual vivemos e ainda teremos que passar viver por um bom tempo. Foi fácil ver praias, ruas e casas entupidas de gente, como se fosse Carnaval (aliás, em 1919, no Rio, o povo fez o Carnaval para superar a pandemia iniciada em 1918).

Mas voltando a falar neste 11 de setembro, são seis meses também do dia em que o Diário do Nordeste noticiou que a Atalanta havia se classificado na Liga dos Campeões ao vencer pela 2ª vez o Valencia, em jogo de portões fechados, na Espanha. Aliás, esse confronto tem seu papel na história. Na história do futebol, mas principalmente, na história da maior pandemia da história mundial. Não pelo números em si, mas pelas proporções.

A partida de ida, realizada em 19 de fevereiro, é apontada por epidemiologistas como a "bomba biológica" para ter desencadeado a série de casos e mortes pelo novo coronavírus na Itália, que causou colapso no sistema de saúde. Só para citar, o placar foi de 4 a 1 para a Atalanta sobre o Valencia. Mas o isso é o que menos importa.

Legenda: Gráfico publicado, à época, pelo jornal "La Repubblica" mostra avanço do novo coronavírus na Itália após Atalanta x Valencia
Foto: Reprodução

Vamos fazer um projeção rápida. O primeiro paciente com Covid-19 em solo italiano foi documentado em 23 de fevereiro. Isso implica dizer que o vírus já circulava pelo país. Pois bem, o jogo de ida, disputado no Estádio San Siro, em Milão, contou com a presença de 40 mil torcedores do Atalanta que saíram de Bérgamo. O time mandante não tinha estádio com capacidade para mandar a partida em casa. E foi para Milão, que é perto. As duas cidades ficam na Lombardia - epicentro do novo coronavírus na Itália.

Parte desses 40 mil entraram no estádio e a outra parte ficou fora. Nas duas situações, em aglomeração. Facilmente, o vírus circulou entre os torcedores. Depois, todos voltaram para Bérgamo.

Legenda: Caminhões levam corpos na Itália no momento mais difícil da pandemia no país
Foto: Reprodução

Em seguida a esse evento, Bérgamo se tornou uma das cidades mais afetadas da Itália pela doença. A Lombardia se tornou o epicentro da Covid-19 de forma muito rápida. E de Bérgamo, vimos uma das cenas mais angustiantes dessa pandemia: os caminhões do exército levando dezenas de caixões que não tinham onde serem enterrados para outra cidade.

O próprio Valencia, semanas depois, acabou com um terço do seu elenco e da comissão técnica contaminados.

Uma de várias tristes histórias desta pandemia. E que cenas como a do feriadão da Independência não repitam o mesmo protagonismo que as aglomerações de torcedores em Milão no atual cenário da doença por aqui. Para que ninguém tenha outra história semelhante daqui a outros seis meses.

Legenda: Em Fortaleza, praias ficaram lotadas no feriadão da Independência
Foto: Natinho Rodrigues