'Sex Education' evidencia importância da educação sexual e dos diálogos familiares

Segunda temporada da série britânica mergulha fundo nas relações pessoais dos personagens e mostra como a hipocrisia pode gerar traumas

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Elenco jovem da série foge dos estereótipos de filmes juvenis Divulgação

Carnaval chegando e, no Brasil, um dos assuntos mais discutidos é a campanha do Governo Federal, capitaneada pela ministra Damares Alves, que prega a abstinência sexual. "Tudo tem seu tempo", diz o lema. A questão é: para adolescentes nada é mais relativo do que o tempo ou mais instigante do que sexo.

Série britânica lançada em 2019 e que acaba de estrear sua segunda temporada, "Sex Education" vai direto ao ponto e coloca na berlinda a ideia de retroagirmos à "Era da Inocência". Saber menos não resulta em solução de problemas como gravidez na adolescência, disseminação de DSTs ou atitudes promíscuas. Pelo contrário.

Na forma de comédia dramática, a produção, disponível no Netflix, traz oito novos episódios que têm tudo (tudo mesmo) para chocar os conservadores contrários à educação sexual por entender que esta estimula as relações precoces.

A trama, criada por Laurie Nunn, é extremamente honesta e direta ao abordar os tabus que envolvem a sexualidade humana. E não apenas na juventude. Afinal, os personagens mais maduros da história, incluindo professores, também se enrolam em suas relações afetivas e se sentem inseguros sobre o que podem (ou não) fazer entre quatro paredes.

Com doses de comédia tipicamente britânica, a nova temporada de "Sex Education" mostra como o protagonista Otis Milburn (Asa Butterfield), de 16 anos, supera seu medo de tocar o próprio corpo e se permite ir além no namoro com Ola Nyman (Patricia Allison). Otis, além de ser filho de terapeutas sexuais e de comandar uma espécie de consultório alternativo na escola para dar conselhos aos colegas adolescentes, vai descobrir que da teoria à prática existe uma enorme distância.

Nesse ponto, a afetividade entra em cena para bagunçar a cena dominada pelo desejo.

É assim com um dos melhores personagens da série. Eric Effiong (Ncuti Gatwa), gay assumido e bem resolvido, ele se surpreende ao virar crush de Rahim (Sami Outalbali), o novo garoto-galã da escola. Ao mesmo tempo, sente falta do bad boy por quem é realmente apaixonado. O problema é que Adam (Connor Swindells), além de ter ido expulso da escola e de ser o filho do diretor, não sabe como abrir a porta de seu armário, cada vez mais pesado de carregar. O triângulo amoroso é um dos pontos altos da temporada.

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Otis e sua mãe Jean Milburn enfrentam frustrações e dúvidas com diálogos Divulgação

Quem espera par romântico pode se decepcionar. Para dizer a verdade, a relação mãe e filho - Dra. Jean Milburn (Gillian Anderson) e Otis - reforça como o diálogo dentro de casa pode ser importante para desatar nós na garganta e dissipar traumas gerados por segredos e meias palavras do passado.

Afinal, independente da idade, quem não tem seu esqueleto no armário? Os diálogos entre os dois são doloridos, mas sensacionais.

A trama também revela raízes familiares de cada um dos protagonistas. É o caso da maravilhosa Maeve Wiley (Emma Mackey). Apaixonada por Otis, ela é uma das melhores alunas da turma, madura demais para sua idade e auto-suficiente desde que a mãe viciada a abandonou no mundo. Mesmo sendo brilhante e independente, Maeve se sente incapaz de conquistar o amor de um cara legal ou de sonhar com um futuro melhor. O drama, aqui, se torna mais pesado.

No outro extremo, está Jackson Marchetti (Kedar Williams-Stirling) que é sufocado pelo amor de suas duas mães. Tanto que vive sempre com medo de ser o pivô da separação das duas. Por isso finge gostar da vida que leva, enquanto sofre a pressão para ser o melhor atleta de natação.A verdade é que ele paga um preço alto demais para sustentar essa farsa. A ajuda, para surpresa dele, vem de onde menos espera.

E a educação sexual?

Ela mantém seu protagonismo em todos os arcos. Está presente nas descobertas sexuais de jovens, nas mudanças de atitude entre adultos (acreditem, eles precisam de ajuda mais do que se imagina) e nos conflitos que explodem justamente pela ausência de uma vida sexual.

Um dos momentos mais engraçados e que mais chama atenção na história é a histeria coletiva que toma conta da Escola Moordale High. Um suposto surto de clamídia (uma IST) leva os alunos à loucura e à troca insana de acusações na busca pelo causador da infecção "massiva".

O fato mostra o quanto a falta de informações pode confundir, assustar e levar à tomada de atitudes equivocadas.

É nesse momento que a Dra. Jean entra em cena e ganha espaço no colégio onde, até então, quem tirava dúvidas (em troca de pagamento) era seu filho adolescente. Sem papas na língua, ela ganha confiança não só dos alunos, mas também do corpo docente e de seus familiares. O simples fato de trocar ideias sobre sexualidade pode dar um choque de realidade em quem estava acostumado à zona de desconforto.

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Meninas dão uma lição de sororidade na segunda temporada da série Divulgação

Já o núcleo das meninas ganha novas integrantes e dá uma bela lição de sororidade ao ajudar Aimee Gibb (Aimee Lou Wood) a superar um caso de assédio sexual que, a princípio ela se nega a admitir ter sofrido. Como se dissesse a si mesma: "se eu não souber o que houve, não sofro, certo?". Errado. Melhor seria dizer: "seu eu admitir que me fizeram mal, poderei denunciar, pedir justiça e me proteger melhor se houver uma  próxima vez". Não é fácil ser mulher numa sociedade historicamente machista. No Brasil, no Reino Unido, seja onde for.

O episódio faz lembrar o caso de Bianca Andrade (a Boca Rosa) no BBB 20, ao ter sido tocada nos seios por Petrix e não se dar conta de ter sofrido assédio.

"Sex Education" segue na contramão de filmes norte-americanos das décadas de 1980 e 1990 que conquistaram milhões de fãs usando sexo como mote para comédias escrachadas, a exemplo de "Porky's" e "America Pie". A produção britânica também tem cenas que flertam com o escracho (atenção para a cena do espetáculo teatral), mas de maneira bem mais artística e atraente.

O charme da série, além do elenco bem entrosado, reside no seu tom levemente deslocado da atualidade hiper conectada. Nada de computadores e celulares dominando os espaços. Por vezes, esquecemos que os jovens vivem em 2020.

A fotografia absorve tanto os tons cinzentos quanto as cores saturadas das festas com inspiração retrô. Os figurinos também estão mais para vintage do que descolados. Tudo isso é colocado de maneira bem casual, de forma a não gerar estranhamento no público mais jovem e ao mesmo tempo ganhar de vez os que já passaram dos 40 e tantos.

Há quem veja, inclusive, uma forte influência das obras de John Hughes na série. E é verdade! Os próprios produtores admitem que "Sex Education" tem mesmo uma vibe típica do diretor de sucessos como o "Clube dos Cinco", "A Garota de Rosa Shocking" e "Alguém Muito especial".

"Sex Education" é uma atração para (quase) todas as idades. Pena que não seja para todas as mentes.