Dependentes do torcedor, Ceará e Fortaleza podem ser os mais afetados com jogos sem público

Tendência é que o início da Série A seja com portões fechados para evitar aglomerações por conta da Covid-19. Vovô e Leão marcaram a maioria de seus pontos no Brasileirão de 2019 em casa, com a ajuda dos torcedores

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O cenário atual do futebol brasileiro e do cearense, por hora, tem mais dúvidas do que certezas. Das poucas conclusões que se descortinam até o momento nas várias reuniões por videoconferência, realizadas entre as entidades (clubes, federações e CBF), uma já se pode analisar, pela lógica aplicação no dia em que o futebol retornar: o esporte ocorrerá sem a presença de torcedores (por tempo indeterminado).

Tal medida, óbvia pela concentração de pessoas que o futebol proporciona e pelo tempo que o novo coronavírus ainda será inimigo mundial, pode ser encarada de diferentes formas. Para Ceará e Fortaleza, então, o impacto futebolístico e financeiro é muito preocupante, tendo em vista os números da Série A 2019.

Em ranking montado pelo Diário do Nordeste com base no rendimento em casa de todos os 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro, o Ceará foi a equipe que mais dependeu do fator casa para chegar à pontuação ao fim da competição. Dos 39 pontos do Vovô, 30 foram conquistados na Arena Castelão, ou seja, 76,9% do total. Número este que coloca o Alvinegro de Porangabuçu no topo entre as 20 equipes no fator "Casa-dependência" ou, podemos dizer também, "Torcida-dependência".

Arte Série A

A situação do Fortaleza é um pouco melhor que a do rival, mas não tanto. Dos 53 pontos tricolores em 2019, 36 foram obtidos também no Castelão, o resulta em 67,9% do total disputado. No ranking "Casa-dependência", o Tricolor do Pici aparece em 5º lugar.

Fator arquibancada

A presença de público marca o compasso da partida e é um fator a mais para que o próprio time ganhe confiança em campo. O presidente do Fortaleza, Marcelo Paz ressalta que há diferença clara quando o Leão joga com torcida e sem ela.

Eu considero fundamental porque a nossa torcida é conhecida pela presença, pelo volume da festa e tem uma participação ativa no jogo. Inúmeros adversários vieram e falaram de temer a nossa torcida, a Arena Castelão tem uma acústica muito boa, a torcida faz mesmo barulho. Em uma volta do futebol sem a torcida, temos uma perda no espetáculo, é outro jogo sem a torcida, mas entendo que se for necessário vamos ter que entender pelo bem coletivo. Lembro até de um jogo sem torcida, foi na Série C de 2016, Fortaleza 1 a 1 com River, no Castelão. É diferente porque você escuta a batida da bola, jogadores se comunicando, a gente nem ganhou o jogo, é difícil manter a concentração. Eu assisti aquele jogo ao lado de três pessoas na arquibancada".

Robinson de Castro, mandatário do Ceará, também ressaltou o prejuízo de atuar em campo sem a presença do torcedor nas arquibancadas e de como isso pode afetar o ganho de pontos.

O time perde muita força sem a arquibancada. Ela motiva, pressiona o adversário, fornece ritmo ao jogo e a torcida tem um papel extraordinário em qualquer esporte. Jogar sem torcida, como fizemos com o Sport, foi uma experiência diferente. É preciso ter uma força interior, entusiasmo que vem de dentro para conseguir ter um rendimento em campo. A torcida do Ceará o faz superar a própria força porque o torcedor é esse ânimo que motiva".

Ganhos em casa

No aspecto financeiro, alguns clubes do Brasileirão terão efeito reduzido, principalmente os que têm pouca torcida ou aqueles cuja a venda de bilhetes e número de sócios não têm peso significativo no orçamento. O Red Bull Bragantino é exemplo. Outros clubes têm torcida, mas recebem verbas de televisão e patrocínio tão grandes que possuem maior "independência" com relação à arrecadação no estádio.

Não é a situação de Ceará e Fortaleza. A venda clássica de ingressos (número que ano após ano é menor pelo aumento dos sócios-torcedores) tem relevância em grandes jogos, principalmente pela venda de bilhetes para grandes equipes visitantes. Confrontos contra o Flamengo são bons exemplos disso.

Mas bem além disso, o que se perde com a ausência de torcida é o não consumo de produtos e serviços que são oferecidos pelos clubes.

No Estado do Ceará, diferente de outras federações, Ceará e Fortaleza extraem tudo que a Arena Castelão pode oferecer, já que são co-gestores do estádio em dias de jogos.

Sem torcida, não há ganhos com venda de bebidas alcoólicas, comida, estacionamentos e camarotes, o que acaba tendo peso tão relevante quanto a venda de ingressos. Só para se ter ideia, Vovô e Leão faturaram mais de R$ 1 milhão, cada um, com venda de cervejas em 2019.

Há grande impacto também na questão dos sócios-torcedores, mas os clubes já trabalham com campanhas de marketing para evitar, ao máximo, a possível a "evasão" dos associados.