O direito à dor

ilustração
Legenda: ilustração - Ju Chooo

(Março começando, várias demandas sobre o Dia da Mulher, e eu só consigo lembrar de uma situação que vivi esses dias.) 

É um procedimento simples e rápido, disse ela. A gente pode até pedir sedação, mas também podemos fazer aqui e ser tranquilo, completou. Bom, existe uma regra universal que diz: ao menor sinal de anestesia, use-a. Ou algo parecido com isso. Mas, mulher que sou, ignorei essa regra. 

Cheguei no consultório cantando e dançando, como se estivesse indo tomar um café e não prestes a sentar em uma cadeira de médico. Senti muita dor, muita mesmo, de gritar. E senti vergonha. Tanto quanto. A vergonha de ter sentido e reclamado de dor. 

Precisei ficar em observação e cada cuidado que eu recebia, a vergonha aumentava. Eu não sinto dor, doutora. Eu durmo enquanto faço tatuagem, eu não dou um pio na depilação, eu fico quieta pra furar um piercing. Eu não sou de sentir dor, repetia.

Eu ia me justificando, quase como se precisasse informar que aquele era um caso isolado e eu não era essa mulher que reclama. Eu sou daquela categoria que é forte e que veio com o cromossomo que permite ter capacidade de resistência o suficiente para até parir uma pessoa, dizia a mim mesma.

Porém, não há espaço para sentir. A lágrima da mulher, ela é errada desde o primeiro brilhar de olhos, seja caindo demais, seja caindo de menos.  A dor não é permitida. Pois ou carregamos e sustentamos o estigma de ser esse tipo estranho que convive com dores mensais e segue a vida mesmo sangrando, ou a cada reclamação de dor é posta no lugar de histérica e sensível demais. 

Ao tentar fugir de qualquer esteriótipo determinado às mulherzinhas, sendo essa uma palavra dita de forma tão pejorativa que se aproximar dela é um pesadelo, não recebo a permissão de pedir ajuda e relatar que meu corpo está gritando que está sendo difícil passar por aquilo. 

Era como se a dor fosse mais um dos pecados que carregamos ao existir, pois sucumbir a ela era cair no odioso poço do diminutivo e negá-lo é ultrapassar os limites do corpo, muitas vezes desnecessariamente. Ou seja, se resisto, me exponho. Se me entrego, me sinto desconfortável. 

À nós, a vergonha, o medo e a angústia seja qual for a resposta à dor.  Não sou nem guerreira, nem frágil. 

Eu só queria poder dizer ai sem sentir culpa. 



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