Jejum de Mayra Cardi: vilanização da comida e exibição de corpo sem gordura são problemáticos

Em mais um ato de extrema imprudência, "líder em emagrecimento" compartilha relato de jejum junto com imagens de seu corpo esguio

Por mais quanto tempo tornaremos famosas ou chamaremos de influenciadoras pessoas que não carregam junto de si a responsabilidade sobre aquilo que falam, publicam, compartilham, permeiam? 

Mayra Cardi, que em seu perfil no Instagram se diz "líder em emagrecimento natural", vem relatando a experiência de ficar sete dias em jejum. Dizia ser por questões religiosas. Passado o período, porém, o seu depoimento sobre o assunto vem rodeado de publicidade de produtos relacionados a emagrecimento e ainda imagens suas exaltando a magreza advinda desse tempo. 

Em vídeos compartilhados nos stories, além de relatar seu suposto jejum de sete dias, a fala de Mayra carrega ainda frases problemáticas como "comer é um hábito". Em um país no qual 19 milhões de pessoas passaram fome no ano passado e cada vez mais tem gente lutando contra a miséria que avassala em meio a uma pandemia, alguém com status de "analista comportamental" acredita que pode compartilhar algo nesse teor? 

Viralizou há não muito tempo, pelo twitter, a personagem Keila Melman, que em tom sarcástico se diz coach de etiqueta virtual. O bordão questiona em meio a perguntas sobre se deve publicar conteúdos esbanjadores: "quer postar? posta. É de bom tom? Não, não é de bom tom". 

E, definitivamente, não só não é de bom tom como é problemático alguém com seis milhões de seguidores compartilhar algo que compactua com problemas gravissímos, especialmente entre mulheres, como a anorexia e bulimia. Relatos de jejum por questões religiosas ou de crença não vêm atrelados a vídeos puxando a barriga e exibindo um corpo sem gorduras como se fosse um troféu, uma recompensa por não comer. Muito menos seguido de publicidade de creme "redutor de medidas".

"Ó a cinturinha", diz a empresária enquanto exalta ossos saltados. Se esses vídeos chegam em mulheres que estejam passando por distúrbios alimentares, com baixa autoestima ou o que quer que seja, de que forma vão impactar? 

Quando se propõe a falar para milhões de pessoas e se intitular como um criador de conteúdo, é importantissimo lembrar que se é totalmente responsável por aquilo que compartilha. Cometer deslizes, falar algo fora de tom, mostrar-se ignorante em relação a algumas pautas é natural, mas publicar e reforçar a ideia de vilanização da comida não é um "pequeno equívoco", é algo premeditado para depois lucrar com mulheres e distúrbios corporais. 

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Mayra Cardi vende cursos, produtos e o que mais puder ganhar dinheiro com assuntos relacionados a corpo e, essencialmente, emagrecimento. Fazer com que mulheres odeiem o próprio corpo é uma maneira de tirar proveito financeiro delas, fazendo com que percam tempo, dinheiro e saúde tentando emagrecer. Acreditar que segui-la é apenas acompanhar a sua rotina é cair em conto do vigário. 

É uma luta de muitas gerações a de eliminar a padronização do corpo feminino, ser contra a objetificação desse corpo e lembrar que manter mulheres com fome é uma forma de controle. Naomi Wolf, em "O Mito da Beleza", lembra que "ninguém destrói o patriarcado com fome" e que fazer dietas restritivas é um dos sedativos políticos mais potentes na história das mulheres. 

Nem todas são aliadas. Devemos escolher melhor quem tornamos famosas, influentes e prestigiadas. Um like não vale a sua saúde (mental, física e financeira).