Gratidão por não ter vivido uma adolescência em redes sociais

Viralização de vídeo em que TikTokers se acham o máximo por usar Zara me faz lembrar que é muito bom não ter tido redes sociais quando fui adolescente

Acho que a palavra gratidão caiu num lugar comum horroroso da galera harebô das internets e perdeu muito do seu significado. Infelizmente, porém, terei que usá-la aqui. Afinal, poucas palavras conseguem traduzir o sentimento que eu nutro por um fato ao qual sou realmente muito grata: não ter tido uma adolescência em redes sociais. 

Millenial que sou, adentrei à internet quando tudo ainda era mato. Fiz parte de bate-papo na era DOS, aprendi um pouco de HTML pra deixar o cursor do blog com rastro e meu Hotmail era um apelidinho. O mesmo, inclusive, que era meu nick no Mirc e no Fotolog. Ainda assim, não fui adolescente neste atual período de redes sociais, com Instagram, stories, Twitter, TikTok e sei lá o que mais com muitos seguidores e uma exposição excessiva. Isso me salvou de muitas presepadas, de ter documentado a ruma de besteira que eu já fiz e falei com uma típica jovem classe média de 16 ou menos. 

Imagina dar um chilique clássico adolescente de querer dar um close em alguém que te criticou, achar O MÁXIMO usar Zara e falar uma besteirada sobre isso? E aí, no dia seguinte, em vez de no máximo pagar um mico no colégio, ter que gravar mais uma sequência de stories para se explicar? Fico pensando aqui no mundo se acabando e a gente gastando toques no teclado pra discutir besteirol de adolescente branco esnobe, com aquela arrogância típica. E nem é sobre passar pano ou qualquer coisa parecida, é só porque é uma bobajada, sabe? Não vale nem o palco. 

Imagina se toda grande frase de efeito que escrevi no /quit do MiRC tivesse poder de viralização? Se minhas fotos postadas no fotolog com legendas drama queen fossem vistas por milhares de pessoas? Se minhas primeiras decepções amorosas fossem compartilhadas com tanta gente assim? E se os pensamentos sem futuro (mesmo) que já tive do mundo virassem vídeos? Ô vergonha! 

A adolescência é, pra mim, das fases mais complicadas da vida. A ebulição hormonal, as descobertas, a falta de paciência, a pressa e tantas outras características dessa fase constroem um período de pura turbulência e palco pra deslizes. E tudo o que você quer, em alguns momentos, é somente correr para o quarto, bater a porta, gritar "eu te odeio, você acabou com a minha vida" sem muita gente pra ouvir.   

E, com tudo isso acontecendo em você e ainda uma imensa rede acompanhando, torna essa fase especialmente difícil. Até porque, é um período em que ser aceito é quase uma necessidade e várias ações ou palavras partem desse desejo. Todos nós, em vários momentos da vida, carregamos essa busca pela aceitação, mas na adolescência isso é latente, gritante. Imagino então essa busca afetiva validada a partir de likes, visualizações e compartilhamentos. E todas as bobagens ditas e feitas lá, a disposição para apreciação coletiva. 

Não tem jeito, ter vivido uma adolescência em que meus equívocos juvenis foram compartilhados com pouca gente é traduzido somente como: gratidão! 

 

 

 



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