Fiuk se preparou para ser desconstruído, mas esqueceu que ter carro e guitarra já é privilégio

Para fazer parte do time do BBB21, o cantor fez algumas aulas para se atualizar das pautas. Mas faltou uma.

Antes de entrar para o BBB, Fiuk teve a preocupação de se preparar em relação às pautas da atualidade. Fez aulas de desconstrução para entender sobre feminismo, racismo  e diversidade sexual. Porém, pelo último discurso dentro da casa, faltou uma última aula: a de consciência de classe. 

O filho de Fábio Júnior protagonizou diversos VTs hilários, principalmente no começo do jogo, em que tentava militar e se portar como um homem desconstruído. Chorou ao se dizer ‘homem branco privilegiadaço’, silenciou Carla Diaz ao dizer sobre o que ela deveria conversar por ser uma mulher branca e ainda corrigiu Camilla e João dizendo que o correto não é senhor, nem senhora. É senhore.  

No fim, pouco impacto teve a preparação. O músico mostrou o quanto usar saia e proferir um vocabulário neutro não importa diante das atitudes. Foram várias as vezes em que interrompeu as mulheres da casa, se mostrou intransigente e bem mimado. 

No último domingo, Fiuk coroou a cereja do bolo: em seu discurso em prol da própria vitória dentro do jogo, usou como argumento ter “dificuldades financeiras”. Afirmou ter “precisado” vender carro, guitarra e “até” computador. Fiuk esqueceu que ter acesso a tudo isso já o faz ‘privilegiadaço’ em relação a maioria esmagadora brasileira, inclusive diante de suas concorrentes ao prêmio que carregam história reais de problemas financeiros. Pesquisa recente mostrou, por exemplo, que 19 milhões de brasileiros não tem sequer o que comer. É a fome, em sua mais cruel forma.  

Não duvido que a pandemia tenha afetado os dividendos do cantor, bem como o de sua família. Sabemos que o impacto no universo de shows, eventos e afins tem sido um dos mais fortes com o isolamento social. O setor foi o primeiro a parar e deverá ser o último a voltar (ainda mais se dependermos da condução que estamos tendo desses caos).

É provável que os ganhos de Fiuk e sua ‘ajuda de custo’ vinda do pai possam ter tido uma queda que, para ele, é significativa. Mas isso não o faz alguém excluído socialmente. 

Não é preciso ser um jornalista investigativo para saber onde Fiuk mora, para quais locais já viajou e quais carros ostenta na garagem. Ter que se desfazer de alguns desses elementos não deixará Fiuk à margem, muito menos viverá uma vida desconfortável. E jogar essa carta em jogo acompanhado por milhares de brasileiros que, de fato, tem sofrido com tudo o que vem acontecendo no País, é ter uma visão muito restrita do que é a realidade ao seu redor. 

Apesar de ser um homem adulto, é possível que Fiuk ainda precise voltar para a sala de aula para mais alguns ensinamentos sobre o que é o Brasil.