"Depois a Louca Sou Eu" ou todo mundo se sente um pouco deslocado?

Assistindo o filme baseado no livro de Tati Bernardi, falhei no que a minha analista disse sobre trabalhar a alteridade

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Acho que todo mundo já se sentiu um pouco deslocado no mundo, com a sensação de que ninguém compreende o que se passa na sua cabeça. Digo todo mundo, mesmo sabendo que todo mundo é muita gente, pois imagino não ser possível que alguém seja tão bem resolvido em si que em nenhum momento da vida se sentiu o coringa do jogo de cartas ou uma barata escondida embaixo da cama. Será que tem? 

Bom, enquanto penso que eu devo ser a única meio maluca deslocada desesperada por aprovação em um mundo de gente bem resolvida que sorri em fotos de redes sociais sem filtro, penso no quanto me identifiquei no filme "Depois a Louca Sou Eu", estrelado pela Débora Falabella, dirigido pela Julia Rezende e baseado no livro homônimo da Tati Bernardi com estreia para o dia 25/02. 

Livro esse em que Tati relata situações reais da própria vida e como as crises de pânico e ansiedade a acompanharam em sua trajetória pessoal e profissional. Na tela do filme, Débora dá vida à Dani, que representa os relatos de Tati (claro, com doses de ficção). 

Minha analista diz que eu preciso trabalhar a minha alteridade e não ficar toda hora me comparando a personagens, sejam eles fictícios ou aqueles criados por personas quando compartilham seu recorte de vida pelas telas do celular.

Bom, talvez ela não tenha exatamente dito isso, e eu que disse, já que quem faz análise sabe que o analista fala pouco, faz umas perguntas irritantemente certeiras e repete algumas vezes aquilo que você  mesma falou, para que você escute pela voz de outra pessoa aquilo que você está dizendo.

Não sei muito bem porque a gente paga por isso, só sei que toda semana espero por esse momento. E estou aqui falhando mais uma vez com o que trabalhamos no divã, pois a todo momento me senti como Dani. 

Sigo falando sobre mim porque o filme da Tati, ops, da Dani, protagonista, é um relato pessoal da Tati, adaptado para as telonas. E não há como não se identificar! Ou talvez há. Fico pensando se alguém assiste às cenas de uma mulher de trinta e poucos com crises de pânico e ansiedade, buscando se encaixar em amores, amigos, relações familiares e todas aquelas cenas cotidianamente comuns e falhando miseravelmente e pense: nossa, que maluca ela. Em vez de, nossa, que maluca eu sou. 

Débora, ops, Tati, quer dizer, Dani traz um retrato de uma mulher comum em busca de sua realização pessoal e profissional. Nada mais banal, tal qual nossa vidinha. Mas o excepcional que faz com que essa trajetória tenha liga para se transformar em um filme é perceber o excesso de humanidade justo nos excessos de Dani. Tentando não ser demais, ela exagera no trabalho, nas relações, nos desejos e, claro, nos remédios

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A gente vive nesse mundo que vende felicidade por meio de procedimentos estéticos, filtros retrô para a rede social mais bombada, na comprinha feita com um clique na internet, no levantamento de peso filmado ou naquele prato vendido no restaurante hype da esquina. E cada vez que a gente não se percebe preenchendo esses lugares, sente que deve estar falhando na felicidade que deveria ser compartilhada.

Talvez até você pense que eu estou falando de alguém nessa descrição das situações acima. Mas é de mim mesma, que caio em todos os contos vendidos pelo marketing, pela influência ou por qualquer outro mecanismo que busque lucrar com a minha sensação de não pertencimento. 

Mas voltemos a falar sobre a protagonista. Entre pílulas e cartelas, ela vai passeando pelas situações descontroladamente controlada. Exatamente da forma que o mundo espera que nos comportemos. Afinal, quem nunca se escondeu para caber em uma caixinha socialmente aceita. 

Quem não deixou de falar o que pensava, quem não criou um personagem de si mesma para melhor passar, quem nunca se forçou a ir para um lugar só para agradar um parceiro, quem nunca sofreu por amor e quem nunca fingiu que estava tudo bem quando na verdade estava explodindo por dentro? Vocês nunca? Eu já mil vezes. 

O lance é que a protagonista transforma a tragédia pessoal em crônicas. E se ela não expusesse cada segundo da vida ou não transformasse suas tragédias em colunas de jornal, não haveria o convite para escrever novela, para ir a um famoso programa de entrevistas na TV ou para jantar com uma dupla de irmãos mais famosas do Brasil (talvez alguma dessas situações não esteja exatamente no filme e eu tenha ouvido em algum podcast da autora do livro que inspirou o filme). 

O fato é que, tal hora, ela conquista exatamente aquilo o que sonhou. E  não há nada mais assustador do que conquistar aquilo que deseja. Aí fico um pouco preocupada com como ela vai lidar com aquilo e, ops, não é a minha vida. Talvez esse medo seja o meu. Alteridade... Se alguém souber como lidar com ela, me conta.  

 

 



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