A sina de Yoko Ono ataca Meghan Markle

A emancipação de Meghan e Harry rende leituras por vários olhares. Aqui, observo o peso jogado à Meghan em relação a decisão do casal de deixar o cargo real na Inglaterra e escolher um outro estilo de vida. 

Legenda: Meghan e Harry, o casal que abriu mão da realeza

Meghan e Harry, como um casal, tomaram a decisão juntos. Muito provavelmente, após longas conversas e análises dentro do que esse novo rumo traria para eles e a família real. Duas pessoas adultas, cientes de suas ações, vacinadas e em pleno gozo de suas faculdades mentais. Porém, a quem caiu a “culpa” sobre a decisão? À Meghan. 

Uma mulher negra, distante da família real, que tinha sua própria carreira e com ideais feministas incomoda muita gente, sim. Mas representa muita gente também. E, de fato, era de se esperar que Meghan não aceitaria as amarras de uma vida de “princesa” quieta. 

Ainda assim, Harry não é coadjuvante nessa história e a decisão foi tomada em conjunto. Sempre me impressiona essa ideia de que homens adultos não são capazes de tomar as próprias decisões e ficam à parte de suas próprias trajetórias enquanto toda a responsabilidade cai para alguma mulher.

A narrativa cabe às “destruidoras de lares”, como são comumente chamadas mulheres que se envolvem com homens casados. A eles, coitados, fica somente o papel do “seduzido”. A elas, a fogueira.  

Quanto à Meghan, não há como não lembrar, por exemplo, de Yoko Ono, até hoje apontada como a responsável pelo fim dos Beatles. Sim, aquele grupo de quatro barbados que, segundo essa visão,  tinham condição de tocar, compor e viajar como uma das bandas mais aclamadas do mundo, mas não de resolver as próprias questões. O fim da banda fica, então, à culpa de uma mulher.  No Brasil, o Sepultura passou pelo mesmo. Grande parte do peso da rusga entre os irmãos Cavalera ficou creditada à esposa de Max, Gloria Cavalera. 

Voltemos à família real. Harry, o príncipe, deve ter todos os seus motivos para não querer fazer parte da tradicional família inglesa. Uniu-se, como é de se esperar quando se forma um casal, a alguém com olhar de mundo parecido com o seu. E deve ser dono e responsável pelas próprias decisões. Me ofenderia, se homem fosse, de estar no papel de alguém tão influenciável ao ponto de não dar conta nem da decisão de romper com a história da minha própria família. Que tipo de ser eu seria se não pudesse nem me tornar  protagonista da minha própria trajetória?

Ademais, se o príncipe tiver terceirizado sua escolha - ou os Beatles e os Cavalera - isso não o exime da responsabilidade pelo que foi decidido.

Nesse conto sem fadas, não há coadjuvante. Há uma parceria que enxergou, conjuntamente, novas possibilidades de viver. Além disso, fica a certeza de que as mulheres de hoje não querem mais ser princesas presas em um castelo de ilusões e hipocrisias. Elas querem ser livres, dentro e fora de seus relacionamentos. E assim seremos. 



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