SPFW reforça que semana de moda é sobre pessoas, não sobre roupas

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Amapô Agência Fotosite

Já tem algumas temporadas que não cubro a SPFW. Não sei dizer exatamente se sinto falta ou gostaria de continuar nesse tipo de cobertura, já que eram semanas de muita correria, muito desgaste e também muito caos. Mas sei exatamente do que sinto saudade: de ver a história sendo contada naquelas passarelas. Isso porque, há algumas temporadas, as semanas de moda não são sobre roupas, são sobre as pessoas que as vestem. 

Vestir-se é uma necessidade, mas expressar-se pela forma como utiliza as roupas no corpo parecia ser um privilégio dedicado a poucas e poucos (e ainda é).

A moda é um recorte do tempo e, assim sendo, vem mostrando que espaços precisam ser ocupados e o discurso não cabe mais ser excludente.

Todos querem, podem e devem ser vistos, ouvidos e percebidos. 

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Isaac Silva Agência Fotosite

A beleza é heterogênea e a homogeneidade em um vaivém de modelos-cabide, sem personalidade, não mais contemplam a moda e quem dela consome. 

Nessa edição da SPFWN48, alguns ensaios ganharam, de vez, a grande estreia. Lembro de Emicida e Fióti, em 2016, preenchendo aqueles espaços com modelos negros, gordos e fala forte em forma de rap: "hoje é o dia em que a favela invadiu a fashion week".

Ali, era exceção, um dos poucos que o fizeram.

Já nesse ano, o estreante Isaac Silva tem sido um dos nomes mais comentados e queria ter visto ao vivo todo aquele axé preenchendo a passarela banhada de sal grosso e com casting, de fato, diverso.

Mas o grande trunfo é que ele não foi o único: Cavalera, Angela Brito, Amapô, Fernanda Yamamoto, João Pimenta, ÀO e Korshi 01 investiram em escrever suas linhas na história mais com conteúdo do que com formas.

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Apartamento 03 Agência Fotosite

Ou seja, carregaram discursos urgentes e contemporâneos em pessoas que ali vestiam roupas que falavam sobre inclusão, representatividade, sustentabilidade e, como não poderia deixar de ser, política. 

Remeto ainda à Ronaldo Fraga, que sempre buscou aliar suas criações a alguma história, quando, em coleção de roupas de banho, trouxe senhores e senhoras de idade, pessoas com deficiência e outros representantes da multiplicidade visual da sociedade. Ou ainda quando se emocionou ao final de um desfile que levava um casting 100% de mulheres trans para uma passarela no teatro municipal.

A cearense Valentina Sampaio e outras mulheres trans se tornaram figuras carimbadas e, temporada após temporada, normalizaram sua presença por ali. Mas, só nesse ano que houve a estreia de um homem trans na passarela da SPFW.

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Ronaldo Fraga Agência Fotosite

Sam Porto, recordistas de desfiles, entrou algumas vezes com o peito à mostra, junto com as cicatrizes de retirada das mamas. Expor suas cicatrizes, reais e metaforicamente, acolhe ao mesmo tem que causa estranheza. E causar sensações múltiplas deve ser também o papel de uma apresentação como um desfile de moda. 

Houve ainda dos momentos que eu mais queria ter estado presente: o olhar da Amapô e dos estudantes do Senac Cariri para a nossa cultura e nosso artesanato. Para além de leituras óbvias e caricatas, a marca mergulhou em uma profusão de significados para vestir, também, pessoas com cara de Brasil. Na passarela, pespontos de Espedito bailaram num forró gostoso de pura alegria e liberdade.

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Amapô Agência Fotosite

A Amapô sabe como como a alegria pode ser uma forma de combate.  

De edição em edição, a maior semana de moda do País conta a história da nossa sociedade, que segue em luta por ocupar todos, todos os espaços, sem exceção. Que o único caminho seja sempre em frente. 

E as roupas? Ah, escolhe uma que você goste e combine com seu estilo e veste. Tenta gastar menos, foca nos brechós, dá preferência a uma marca pequena da sua cidade, investe em tecidos mais naturais e duradouros, reinventa teu próprio guarda-roupa e se monta do jeito que se sentir bem.

Até as semanas de moda já estão entendendo isso.