Nem Bruna Marquezine tem paz quando o assunto é corpo feminino

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Corpo mais magro da atriz Bruna Marquezine foi questionado

Primeira semana de 2020, muitas promessas, desejos de novo ano, esperança de dias melhores. Realidade: pouca coisa mudou. Nos primeiros dias, o corpo da mulher continua sendo alvo de julgamento e patrulhamento.

Dessa vez, mulheres magras ou que emagreceram estão no centro das discussões. Não há jeito: dentro ou fora do padrão, as pessoas continuam achando que o corpo feminino está à disposição para ser avaliado.    

Bruna Marquezine foi uma das que tiveram sua forma física posta à prova. A magreza da atriz foi questionada enquanto ela postava suas fotos de festas de fim de ano. Os comentários nem valem à pena publicar aqui, mas a maioria justificava a mensagem como um questionamento relacionado à saúde da atriz. Não me recordo de tanta preocupação, por exemplo, quando Bruna tinha recém-completos 18 anos e teve o corpo hipersexualizado em uma novela (que, em algumas entrevistas, poderia ter custado a sua carreira, pois pensou em desistir após o papel).

Mas me lembro de quanto, naquele ano, o seu corpo foi comentado, observado e, claro, criticado. Com roupas extremamente sensuais (reforço, com recém-completa maior idade), Bruna teve que lidar também com quem a chamava de gorda

Engraçado que quando Cleo Pires exibiu suas atuais formas físicas, com quilos a mais do que quando estreou na TV, os comentários também se diziam preocupados com a saúde da filha de Glória. Cleo foi ao horário nobre da televisão falar sobre sua forma física, sobre "as causas" de ter engordado, justificar o peso ganho. Quase como se tivesse cometido um crime. Me corrijam, por favor, se eu estiver errada, mas não me lembro de nenhum ator ter ido a algum programa justificar sobre ter ganho ou perdido peso quando o fato não estava aliado a nenhum personagem.

Vale refletir: a “preocupação” é, de fato, com a saúde de cada uma ou é somente uma ideia enraizada de que o corpo feminino é de domínio público e está aí para ser avaliado e comentado? 

Ainda há pouco li outra matéria, dessa vez sobre Adele, aquela cantora que fez muito sucesso cantando "Someone like you (uuuuuu) (desculpe se fiz você começar a cantar automaticamente a música). Adele tem uma voz incrível e falou-se muito sobre ela à época. Porém, falou-se muito também sobre, ora mais, seu corpo. Adele era uma mulher gorda, fora dos padrões de estrelas hollywoodianas, e lembro o quanto era criticada especialmente em tapetes vermelhos. "Se emagrecesse, ficaria melhor nos vestidos". Lembro, inclusive, que apesar do estrondoso sucesso, poucas marcas de luxo queriam vesti-la para os eventos de gala.

Pois bem, Adele esses dias foi fotografada curtindo uma praia e, veja só, pesando alguns quilos a menos. Imaginei, então, que agora tivesse paz e parariam de critica-la por seu peso. Ledo engano. Adele agora é criticada por estar "magra demais". 

Percebem que a mulher nunca, nunca tem paz quando se fala sobre o seu corpo? Ele é sempre alvo de críticas, seja em qual forma esteja. Não só isso: as críticas são feitas com teor de propriedade sobre aquilo, como se fosse usual, banal e legítimo que o faça.

Pior, com as redes sociais os comentários não são mais aqueles na esquina de "mulher, tu viu como fulana tá magra?". As pessoas se sentem no direito de ir na página de alguém de "acusá-la" de estar com o corpo fora do padrão. "Você está magra demais, tá feia". "Você engordou, tá deformada". 

Como fica a saúde mental dessas mulheres alvos das criticas e daquelas que leem tais mensagens?

E aí não surpreende quando jovens mulheres se submetem a cirurgias plásticas, tratamentos estéticos invasivos e disfunções de imagem acarretando em doenças como a bulimia: se nem Bruna Marquezine tem paz sobre o seu corpo, quem vai ter? Afinal, não querem alertar, querem somente destilar sua insatisfação pessoal e machismo sob forma de "opinião". Sobre o corpo de qualquer mulher, guarde sua opinião para si.