Concursos de Miss Universo conseguem ser representativos de verdade?

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Foto AFP

“Nada é mais importante que ocupar espaço e se estabelecer nele”, disse Zozibini Tunzi, sul-africana, eleita no domingo (8) como a mulher mais bonita do Universo. Uma mulher negra, de cabelo curto e com discurso exaltando a liderança das mulheres como algo fundamental. 

É importantíssimo que mulheres, sobretudo negras, ocupem espaços e se estabeleçam neles. Consigo entender a importância da representatividade em todas as instâncias. E, do lugar onde falo, não posso definir o que mulheres negras devem ou não celebrar. 

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Zozibini Tunzi, Miss Universo Foto: AFP

Porém, não consigo vibrar e enaltecer a permanência de concursos que colocam mulheres para competir entre qual é a mais bonita, reforçando a ideia patriarcal da beleza como único capital social possível para nós. Mais ainda, que impõe a competição feminina como algo positivo, almejado, desejado e, além de tudo, inevitável.

Ainda do meu lugar como mulher branca, não consigo descrever a sensação de se ver como uma mulher negra em locais antes nunca ocupados. Ainda mais sobre uma imagem apagada da história e deixada à margem. Como a pequena menina que ficou feliz ao ver a Maju à frente de um jornal com cabelos iguais ao seu. Mas consigo refletir sobre espaços que se maquiam de representativos. 

Incluir a beleza negra não retira as características excludentes de concursos de Miss. Não deixa de ser um espaço gordofóbico, machista e irreal. Ainda estamos vendo mulheres desfilando trajes de banho para passarem pela avaliação sobre se são suficientemente “bonitas” para, então, existirem no mundo. Sobre se suas medidas estão “adequadas”, se o sorriso milimetricamente alinhado ou as unhas bem pintadas. Para saber “quem é a mulher mais bonita do mundo”. Qual a métrica para definir se sou bonita ou não? Onde está, de fato, a beleza? 

As misses ainda são mulheres que passam por diversos procedimentos estéticos e cirurgias plásticas para construirem uma beleza socialmente aceita e absolutamente fora da realidade. Ainda são mulheres excessivamente magras. Ainda são mulheres sendo avaliadas tão qual um produto. Ainda representam padrões.  

Há de se estar em todos os lugares. Mas há de continuar questionando que lugares são esses que nos são permitidos estar.