O inferno astral das livrarias

Editoras vivem no limite e o mercado das livrarias viu suas duas gigantes – as redes Saraiva e Cultura – bambearem

No fim da semana, a loja da Livraria Cultura que funcionava num cruzamento nobre de Fortaleza fechou suas portas. Para ser mais exato, está de mudança para o Shopping RioMar Fortaleza. Lembro que quando foi inaugurada, houve comoção na cidade, com evento prestigiado por autoridades – gente que, na Bienal do Livro, sequer botava o pé no lugar. 

A mudança inspira sentimentos contraditórios. Ótimo que o shopping ganhe mais uma livraria. Em Fortaleza, as pessoas adoram esta experiência de urbe controlada e com ar-condicionado. Ter livros por lá, não resta dúvidas, torna esse tipo de ambiente mais saudável. Mas não deixa de ver como lidamos com a rua. Dos cinemas que antes ficavam nas vias, só restou o majestoso São Luiz e, ainda assim, bancado pelo Estado. 

Claro, não se deve incorrer no erro de achar que aquele endereço era o único dos livros na cidade. Sequer era o único que ficava ao alcance de quem passava na calçada. Há livrarias cidade adentro, com a Lamarca e a Arte & Ciência, ambas no Benfica, que mais parecem ilhotas de civilização num mundo cada vez mais hostil à ilustração. Mas quem vive delas, sabe o quão difícil é nadar contra a maré. 

E a maré é a da desvalorização deste mercado que, sem exagero, é civilizacional.

No Brasil todo, as editoras vivem no limite e o mercado das livrarias viu suas duas gigantes – as redes Saraiva e Cultura – bambearem. Buscaram reposicionamentos para não sumirem do mapa. Juntas, eram responsáveis por algo como 40% dos livros vendidos no País. 

Sim, editoras, livrarias, mercado: tudo isso é papo de economia e, até certo ponto, para quem pensam negócios, dinheiro, investimento, lucro. Contudo, o mundo do livro não se esgota em seus balanços financeiros. E arrisco: nem tem salvação só em plano de negócios. Por melhor que este seja. Depende mesmo das pessoas, dos leitores, como estes dependem do sistema do livro. 

A desculpa de que o livro custa caro é uma falácia. A classe média, que é quem pode frequentar livrarias em tempos de crise, gasta bem mais em qualquer balada. O livro dura mais: não termina sequer quando finda a leitura. Preocupar-se com a saúde de nossas editorias e livrarias, as grandes e as pequenas, é uma angústia para civilizados. Ou não repararam que o inferno astral delas coincide com tempos tão carregados de ódio, de incompreensão, de falta de empatia e de burrice? 

Vida longa ao mundo dos livros.