A polêmica esfumaçada de Ludmilla

Novo sucesso da cantora carioca, “Verdinha” faz referências ao tráfico e ao consumo de maconha e provoca reações de políticos. Senador cearense Eduardo Girão cobrou adoção de medidas ao Ministério da Justiça

Dá até para acreditar nas velhas lendas de que a indústria cultural arquiteta e executa tudo milimetricamente, para garantir o sucesso de seus produtos, em ações certeiras para seduzir consumidores indefesos. A imagem de público (como) alvo é perfeita para ilustrar esta forma de pensar.

Ludmilla apostou na polêmica para catalisar sua nova música e, com isso, emplacar um novo sucesso. E, pelo jeito, deu certo. 

“Verdinha” é uma clara referência à maconha. “Eu fiz um pé lá no meu quintal/ Tô vendendo a grama da verdinha a um real”, repete o verso. Lançada no fim de novembro, chegou também ao público que não é o da artista, quando o já hit foi apresentado no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, pouco antes do Natal. 

A reação não tardou.

Neste começo de ano, o senador cearense Eduardo Girão (Podemos) encaminhou um ofício ao ministro da Justiça, Sergio Moro, cobrando “a adoção de medidas cabíveis quanto à veiculação de conteúdo apelativo e estimulando o uso de drogas ilícitas”.

Na semana passada, o deputado federal mineiro Cabo Junio Amaral (PSL) já havia acionado a Polícia Federal e o Ministério Público Federal pelo mesmo motivo. 

Mais uma vez, se entra na discussão sobre “apologia ao crime”, contravenção escorregadia, de difícil interpretação. Nos anos 1990, a mesma acusação rendeu a prisão do Planet Hemp, o que provocou uma onda de defesa do grupo de Marcelo D2 e do direito à liberdade de expressão. O conflito escancara a dificuldade de se discutir a questão das drogas com sobriedade no País. Não falta quem grite “apologia!” a cada tentativa de falar sobre discriminalização ou do direito que se tem sobre o próprio corpo. 

O debate trava, como se os lados envolvidos falassem idiomas diferentes e nem a codificação gestual ajudasse para a mútua compreensão. E olhe que não falta o que se discutir nesta seara: dos direitos do indivíduo à efetividade da chamada guerra às drogas; da criminalização do usuário à compreensão do funcionamento das redes de tráfico e suas conexões com os “bacanas”; o impacto financeiro sobre a saúde e as consequências sociais do abuso dessas substâncias.   

Ludmilla também não ajuda. A cantora joga com um discurso vago para os empolgados, da lacração fácil (“Minha vizinha fala, fala, e não consegue acompanhar/ Um dia eu vou poder falar toda verdade/ A máscara que vai cair diante da sociedade”).

No vídeo da canção, mostra que o polemismo é o que conta.  Ela prefere bancar a “drug lord”, bem distante da menina que paga seus estudos e tem uma plantação de fundo de quintal, como revelam os versos.

As imagens se descolam da letra, quando Ludmilla adota o estilo ostentação e desfila no meio de uma plantação profissionalizada (os pés, no videoclipe, são de alface), com empregados fazendo a colheita e carregando os caminhões. Suas bailarinas contam dinheiro e a cantora brinca com uma arma. 

No fim, “Verdinha” e as reações a ela parecem ser interdependentes. Ela usa seus detratores para inflacionar o novo sucesso, nos melhores estilos “falem mal, mas falem de mim” e “artista perseguida”; e dá a eles o que precisam. Música e vídeo ajudam a simplificar o discurso reativo; ilustram o alvo simplório, pobre em nuances ou contradições - ideal para se sustentar a defesa descomplicada de um lado. Sem entrar no mérito das qualidades estéticas do produto, quem perde nisso, mais uma vez, é a sociedade.   

O embate que tem “Verdinha” no centro passa ao largo de uma discussão razoável, lúcida e desapaixonada das questões do tráfico e do consumo de drogas.

A fumaça aqui é da cortina, que impede de se ver o que é preciso.