Viagem entre bairros

O texto dessa semana reflete sobre a rotina e a memória dos mais velhos em relação às constantes mudanças nas vias e desenho da cidade   

memória
Os carros, agora muito mais agitados, não esperam o seu ritmo. Mas as buzinas já não incomodam tanto; o aparelho do ouvido não faz o mesmo efeito da audição de tempos atrás. Foto: Natinho Rodrigues

Mesmo com seus vazios, a casa está cheia, de gente, de móveis. As portas escancaradas. O barulho é o recado do tamanho que é agitação. Aí vão-se abraços, vêm as bênçãos, perguntas curtas, respostas rápidas. Um café. Uma menção à memória, há tempos distraída. Nestor não recorda uns nomes, mas procura nas lembranças alguns rostos. Não vê problema no esquecimento. O presente é sua escolha daquele momento. O passado é elo, mas é também detalhe. 

Saudades, silêncios, sorrisos. Esperas. O tempo nem passou tanto desde a última vez que se viram. Alguns meses, provavelmente. Mas a memória teima em fugir, como se isso um remédio fosse para atenuar dores, encurtar distâncias, nem tão longas assim.  Uns tantos quilômetros, talvez, entre bairros e bairros? Um binário, calçadas de tantos vaivéns, uma estação de metrô, muros rabiscados, estradas asfaltadas separam os dois irmãos de 80 e poucos anos: Nestor e Juvenal. 

Nestor sobe e desce a passo lento os degraus do ônibus que o leva ao seu destino, a casa do irmão Juvenal. Grande parte do cenário já se modificou desde a última vez em que fez esse trajeto. Quando? Não se sabe. Os carros, agora muito mais agitados, não esperam o seu ritmo. Mas as buzinas já não incomodam tanto; o aparelho do ouvido não faz o mesmo efeito da audição de tempos atrás.

 - Olha quem tá aqui, Maria! – entoa alvoroçado Juvenal, carregando o irmão pelo braço até a porta da cozinha de casa.

- E veio de ônibus? Sozinho? – responde, cheia de perguntas, a mulher.

O outro irmão reponde com a risada frouxa.

A demora é quase nada ali. Mas os sorrisos, eternos. Quem assiste à visita inesperada remexe na memória e procura o lugar de Nestor no passado de cada um daqueles que, agora, já estão na sala. A ponto de se despedirem. Nada ali é dramático. Tudo é conversa fiada. Pergunta despretensiosa. Não há mais tempo para inventar desculpas pela chegada repentina. E as grandes saudades guardadas não soam tristes, chorosas. Há pressa na chegada, na saída. Pressa para se continuar os afazeres, de todos os lados.  

O bairro já não é mais o mesmo, recordam os irmãos. Na verdade, para eles, sempre foi bairro, nunca vila. Tanto que Nestor já não sabe onde fica a parada na qual passa o ônibus que o levará de volta pra casa. Todas as ruas têm asfalto, têm comércio, têm ir e vir de gente e de máquina.

Algumas casas cresceram, o sítio da esquina virou uma bodega, que virou outra, que agora abriga em cima umas casas pra alugar. O fusca velho, verde, era sucata de verdade para uns, carro de brinquedo para outros. Desde os anos 70, quando por ali ancoraram, o bairro ganhou saneamento, edifício tipo arranha-céu; perdeu paisagens. Até um Shopping Center firmou-se na sua fronteira.  

Mas o outro bairro.... também não é o mesmo. O canal já não transborda como antes e nem é ponto de encontro marcante da vizinhança, que agora tem mais medo de colocar as cadeiras à margem daquela espécie de córrego, ainda latente. 

Até o itinerário do coletivo ente bairros mudou, o sentido das vias também, e as placas agora indicam onde não se pode trafegar, porque as bicicletas conseguiram vencer algumas batalhas.

Nestor sabe de tudo isso. Mas para garantir o retorno seguro, pergunta onde estão as vias de outrora. Agora, pega-se ônibus pelo número. Antes era pelo nome do bairros, ou das avenidas. 

- E se eu atravessar aquela rua (que agora, na verdade, é avenida), dá pra pegar aquele ônibus antigo?, pergunta tranquilo Nestor. 

- Sim! A parada atravessou a avenida, mas o ônibus antigo, aquele que desce bem na porta de casa, continua passando por lá. Vou lá mostrar onde fica...

- Ah! Não precisa não, ainda vou ali cruzar a rua, visitar em memória o que já não está mais aqui.